{"id":26923,"date":"2018-03-23T18:53:21","date_gmt":"2018-03-23T21:53:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.gabgov.ce.gov.br\/?p=26923"},"modified":"2018-03-23T18:53:21","modified_gmt":"2018-03-23T21:53:21","slug":"a-voz-da-militante-que-ganhou-as-ruas-para-exigir-igualdade-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ce.gov.br\/casacivil\/2018\/03\/23\/a-voz-da-militante-que-ganhou-as-ruas-para-exigir-igualdade-de-genero\/","title":{"rendered":"A voz da militante que ganhou as ruas para exigir igualdade de g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-72572\" src=\"https:\/\/www.ceara.gov.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ceara-de-atitude-topo_mulher.png\" alt=\"\" width=\"100%\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>No m\u00eas em que \u00e9 comemorado o Dia da Mulher, o Cear\u00e1 de Atitude conta a hist\u00f3ria de Daciane Barreto, que h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas transforma a luta feminista no seu prop\u00f3sito de vida<\/em><\/p>\n<p>Daciane Barreto nasceu quebrando expectativas. Em 1955, a conservadora fam\u00edlia de Barbalha, na Regi\u00e3o do Cariri, esperava que a primeira crian\u00e7a a nascer fosse menino. O primog\u00eanito deveria ser homem e capaz de nortear o trilho dos outros filhos que viriam. \u201cFoi o rompimento patriarcal inicial e, depois dele, uma sequ\u00eancia que me tornou o que sou hoje\u201d. Daciane sempre foi um ponto fora da curva na pacata cidade do Interior. Com 13 anos j\u00e1 se embiocava dentro dos coletivos feministas. Queria entender como aconteciam as revolu\u00e7\u00f5es, os motivos que levavam a uma sociedade t\u00e3o desnivelada quando se tratava de quest\u00e3o de g\u00eanero e o que realmente moldava as diferen\u00e7as entre homens e mulheres. Procurava compreender o mundo em que vivia. E mais do que isso: ela tamb\u00e9m queria se perceber.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-72573\" src=\"https:\/\/www.ceara.gov.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/180313_CE-ATITUDE_DP24722.jpg\" alt=\"\" width=\"100%\" \/><\/p>\n<p>Aos 18 anos, conheceu um forasteiro, por quem se apaixonou e topou a proposta de passar a noite no lugar onde os pais jamais os encontrariam: no cemit\u00e9rio. Quando amanheceu, voltou para casa e foi aconselhada a assumir o compromisso de \u201cmo\u00e7a fugida, mo\u00e7a casada\u201d. Entraram na igreja de uma maneira n\u00e3o muito convencional, vestidos de cal\u00e7a jeans e blusa vermelha. \u201cO meu pai tinha educa\u00e7\u00e3o bem r\u00edgida, uma concep\u00e7\u00e3o que as mulheres deveriam seguir um script, que s\u00f3 poderiam concluir o magist\u00e9rio, casar, constituir uma fam\u00edlia e pronto. Mas eu n\u00e3o me conformava com isso, com esse destino. Eu queria ter as r\u00e9deas do meu pr\u00f3prio destino\u201d. Depois de uma semana, o casal partiu sem alarde para uma aventura ao norte do Pa\u00eds. Foi essa viagem ao desconhecido que abriu a vis\u00e3o para o que estava acontecendo ao seu redor. O \u00f4nibus no qual viajavam ia de Ananindeua a Bel\u00e9m, no Par\u00e1, e acabou interceptado por militares. S\u00f3 depois de interrogados souberam que a interven\u00e7\u00e3o fazia parte da reta final da Guerrilha do Araguaia (1967 \u2013 1974), que apertava o cerco a jovens que circulavam por aquelas bandas. Foi ali, explica Daciane, que percebeu de forma mais palp\u00e1vel uma luta por liberdade. Era, enfim, o significado que buscava para o in\u00edcio da descoberta de si.<\/p>\n<h3>A imers\u00e3o nos movimentos e suas conquistas<\/h3>\n<p>Com o equivalente a R$ 10 no bolso, Daciane e o ent\u00e3o companheiro decidiram regressar ao Cear\u00e1. O trajeto de quase 1.500 km ensinou algo que nem escola, nem faculdade nenhuma ensinaria. \u201cTive o conhecimento do povo, de como ele vive, o que \u00e9 oferecido, o que ele aspira, quais s\u00e3o as dificuldades colocadas. Me ensinou a enxergar homens e mulheres com a dignidade que eles merecem ter\u201d. Em terras alencarinas, arrumaram empregos tempor\u00e1rios, estudaram e passaram para concurso em um banco estadual. Daciane tornou-se m\u00e3e pela primeira vez e viu seu casamento seguir uma rota para o fim. Divorciada, m\u00e3e de uma pequena, apercebeu que a grandeza de ser mulher ia para al\u00e9m da maternidade.<\/p>\n<p>Dentro do banco, Daciane sentiu os primeiros efeitos da ditadura militar. A persegui\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o sofridas por participar dos movimentos feministas custou o emprego, mas alimentou a vontade de inflamar ainda mais a resist\u00eancia. \u201cA partir do Centro Popular da Mulher, participamos de forma efetiva e organizada pela bandeira da equidade de g\u00eanero. Foi quando se deram as grandes lutas e as grandes conquistas\u201d. O recorte feito por Daciane leva em conta duas frentes, a efervesc\u00eancia das causas feministas e a exig\u00eancia pelo fim do regime de exce\u00e7\u00e3o. Os dois panoramas n\u00e3o caminhavam em paralelo, mas s\u00e3o imbricados. Justamente nesse cen\u00e1rio, Daciane foi presa. O ano era 1983, e o Cear\u00e1 passava por uma das grandes secas que assolaram o estado. Sem emprego, os homens migravam para S\u00e3o Paulo e deixavam as mulheres sem op\u00e7\u00e3o de sustento. No munic\u00edpio de Pacajus, Daciane mobilizou um levante pelo direito de fazer parte das frentes de servi\u00e7o. No come\u00e7o foram 100 participantes, depois 1.000 e a \u00faltima manifesta\u00e7\u00e3o chegou a reunir 5.000 mulheres, que tomaram todos os cantos da cidade. O impacto foi tamanho que n\u00e3o houve outra solu\u00e7\u00e3o vislumbrada pelas autoridades da cidade a n\u00e3o ser lev\u00e1-la presa. \u201cSa\u00ed de l\u00e1, pois havia o risco de derrubarem a porta do lugar. Sabe o que isso significou? A conquista das cearenses de participar daquilo que tanto gritamos para ter: direito ao trabalho\u201d. Em 1986, o movimento garantiu a cria\u00e7\u00e3o do Conselho Cearense dos Direitos da Mulher \u2013 do qual Daciane fez parte \u2013 e a primeira Delegacia da Mulher.<\/p>\n<p>Quando a ditadura findou, Daciane integrou um coletivo de mulheres da sociedade civil que, junto com um grupo de parlamentares, escreveu as propostas da Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 de 1988. As proposi\u00e7\u00f5es foram aceitas quase em sua integralidade. Entre elas, o fim do p\u00e1trio poder e a equidade de direitos e deveres entre homens e mulheres. \u201cOs homens tinham a primazia dentro do lar. Eles mandavam nos sal\u00e1rios, nos casamentos, nas separa\u00e7\u00f5es e nos filhos. Mandavam nos corpos e nos destinos das, mulheres. N\u00f3s rompemos com isso. E assim permanecer\u00e1 enquanto fincarmos nossos p\u00e9s nas ruas e pra\u00e7as dos quatro cantos do mundo\u201d. A ativista fez parte ainda da Comiss\u00e3o das Mulheres pela Anistia, tornando-se ela mesma uma anistiada pol\u00edtica. Somente em 1989, a Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia (Abin) retirou seu nome da lista de perseguidas, concedendo, d\u00e9cadas depois, acesso ao relat\u00f3rio de suas atividades.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-72574\" src=\"https:\/\/www.ceara.gov.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/180313_CE-ATITUDE_DP25051.jpg\" alt=\"\" width=\"100%\" \/><\/p>\n<h3>O tempo n\u00e3o para<\/h3>\n<p>Lobby do batom foi um termo utilizado pelo movimento feminista cearense para satirizar um parlamentar conservador que teimou em afirmar que a \u00fanica coisa que as mulheres sabiam fazer era usar batom. \u201cAgora pronto! N\u00f3s usamos batom, mas sabe o que fazemos melhor? Lutamos\u201d. As conquistas institucionais e comportamentais, aponta Daciane, podem ser consideradas como avan\u00e7os significativos. As desconstru\u00e7\u00f5es acontecem no cotidiano. Ousar ir para rua denunciar, reivindicar, dizer que o corpo pertence \u00e0 pr\u00f3pria mulher e que nenhuma aceitar\u00e1 o contr\u00e1rio disso \u00e9 mais do que uma fala e n\u00e3o est\u00e1 somente no campo das ideias. \u201cHistoricamente, temos o papel de nos insurgir contra o que nos esmaga, contra o que est\u00e1 nos fazendo mal. Com o tempo, vemos diferen\u00e7a em como voc\u00ea vai enfrentar a luta\u201d.<\/p>\n<p>Passados 32 anos, a militante elenca avan\u00e7os importantes como a constru\u00e7\u00e3o do Pacto Nacional de Enfrentamento \u00e0 Viol\u00eancia; a Lei Maria da Penha, a Lei contra o Feminic\u00eddio e o fortalecimento da Rede de Enfrentamento. \u201cTemos tamb\u00e9m aqui no Cear\u00e1 as Unidades M\u00f3veis, os projetos de discuss\u00e3o com as mulheres do campo, das florestas e das \u00e1guas. Ela \u00e9 fruto das pautas espec\u00edficas das mulheres, que sempre se basearam no trip\u00e9 de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero para avan\u00e7ar em suas propostas de pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d. Nesse percurso j\u00e1 trilhado e para aquele que ainda est\u00e1 sendo constru\u00eddo, Daciane vislumbra um futuro que parece ut\u00f3pico, mas n\u00e3o \u00e9. \u201cA gente tem que acreditar no ser humano. Precisamos satisfazer nossas necessidades f\u00edsicas, intelectuais, subjetivas e afetivas de forma livre e respeitosa. Onde, de fato, as pessoas possam basear seus conceitos de respeito e de desejo de uma vida feliz\u201d.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Daciane a transformou em uma das feministas mais respeitadas do Cear\u00e1, tanto pelo seu hist\u00f3rico de mobiliza\u00e7\u00f5es quanto pelo incessante trabalho em reverberar as vozes de milhares de mulheres. Atualmente, ela integra a equipe da Coordenadoria Especial de Pol\u00edticas P\u00fablicas para as Mulheres do Governo do Cear\u00e1 e refor\u00e7a a import\u00e2ncia em permanecer firme aos princ\u00edpios que sempre a incentivaram a ver os rompimentos como algo bom. \u201cA gente n\u00e3o quer somente que viol\u00eancia amenize. Isso seria muito pouco. N\u00f3s temos que extirpar a viol\u00eancia da sociedade. N\u00f3s sabemos que g\u00eanero \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica politica e cultural. Temos que desconstruir in\u00fameros conceitos, quebrar amarras, e ir construindo entendimentos. Eu entendo que a luta \u00e9 longa, hist\u00f3rica, mas ela n\u00e3o termina hoje\u201d.<\/p>\n<h3>Assista \u00e0 entrevista<\/h3>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=odi8L63sMDU\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=odi8L63sMDU<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No m\u00eas em que \u00e9 comemorado o Dia da Mulher, o Cear\u00e1 de Atitude conta a hist\u00f3ria de Daciane Barreto, que h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas transforma a luta feminista no seu prop\u00f3sito de vida Daciane Barreto nasceu quebrando expectativas. 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