{"id":1546,"date":"2012-01-20T15:21:36","date_gmt":"2012-01-20T18:21:36","guid":{"rendered":"http:\/\/ww16.ce.gov.br\/hgf\/2012\/01\/20\/terapia-contra-a-duvida\/"},"modified":"2012-01-20T15:21:36","modified_gmt":"2012-01-20T18:21:36","slug":"terapia-contra-a-duvida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ce.gov.br\/hgf\/2012\/01\/20\/terapia-contra-a-duvida\/","title":{"rendered":"Terapia contra a d\u00favida"},"content":{"rendered":"<p><em><br \/>A segunda opini\u00e3o dissemina-se nos consult\u00f3rios do pa\u00eds e confirma ser a melhor garantia contra falsos diagn\u00f3sticos e erros m\u00e9dicos <\/em><\/p>\n<p>Bem-humorada, com um sorriso iluminando seu rosto, Z\u00e9lia Velloso, de 56 anos, em nada lembra a mulher amarga de 1996. Naquele ano, ela desconfiava da exist\u00eancia de um n\u00f3dulo no seio direito, embora o ginecologista a tranq\u00fcilizasse. Foi esta sua primeira opini\u00e3o m\u00e9dica. O profissional dizia que era uma &#8220;separa\u00e7\u00e3o de fibras&#8221;, nada grave. A dona-de-casa, no entanto, vinha remoendo d\u00favidas desde 1991. Como a tal &#8220;separa\u00e7\u00e3o&#8221; continuava sendo captada pelas pontas dos dedos, Z\u00e9lia recorreu a outro especialista. Ouviu a segunda opini\u00e3o, em sil\u00eancio, as m\u00e3os se retorcendo: tinha c\u00e2ncer, t\u00e3o desenvolvido que atingira os g\u00e2nglios. Teria de extirpar a mama. E ainda correria risco de vida, avisou o m\u00e9dico. <\/p>\n<p>Z\u00e9lia conteve-se para n\u00e3o gritar. Casada com um funcion\u00e1rio de um grande laborat\u00f3rio cl\u00ednico de Bras\u00edlia, m\u00e3e de tr\u00eas filhos, dias depois entrava no consult\u00f3rio do mastologista Ant\u00f4nio Ribeiro, um dos mais respeitados especialistas em c\u00e2ncer de mama do pa\u00eds. Ele externou a terceira opini\u00e3o: confirmou o diagn\u00f3stico, mas garantiu-lhe a cura. No ano seguinte, a paciente enfrentou quatro sess\u00f5es de quimioterapia, uma mastectomia radical a retirada do seio e outras seis sess\u00f5es p\u00f3s-operat\u00f3rias para prevenir o ressurgimento do tumor. Refez a vida, mas o marido n\u00e3o superou o trauma. At\u00e9 hoje, desvia os olhos da cicatriz que Z\u00e9lia encara como sinal de triunfo. Todos os anos, o c\u00e2ncer de mama mata uma em cada 10 mil mulheres no Brasil.<\/p>\n<p>Ribeiro, o m\u00e9dico que conquistou a confian\u00e7a da dona-de-casa, enfrentaria problema parecido tr\u00eas anos depois. Ap\u00f3s consultar o colega e amigo Miguel Srougi, renomado urologista e professor titular da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo, descobriu-se com um tumor na pr\u00f3stata &#8211; doen\u00e7a que dever\u00e1 afetar 15 mil brasileiros neste ano, segundo estimativa do Instituto Nacional de C\u00e2ncer. Estava na fase inicial e Srougi recomendou-lhe a cirurgia. Ribeiro aproveitou a viagem a Chicago, nos Estados Unidos, onde participaria de um congresso, para ouvir a opini\u00e3o de Jos\u00e9 Edson Pontes, o brasileiro que chefia o setor de urologia do Hospital de Detroit. Pontes \u00e9 considerado uma sumidade. Anos atr\u00e1s, deu pareceres sobre o c\u00e2ncer de pr\u00f3stata de Fran\u00e7ois Mitterrand a pedido da fam\u00edlia do ex-presidente franc\u00eas. Ribeiro estudava o assunto. Lera a tese pol\u00eamica de um cientista segundo a qual a melhor terapia para tumores na pr\u00f3stata em fase inicial \u00e9 cruzar os bra\u00e7os e nada fazer. Pontes endossou o diagn\u00f3stico de Srougi e ofereceu a Ribeiro a possibilidade de ser operado em qualquer um dos centros m\u00e9dicos americanos. O mastologista declinou o convite. Voltou a S\u00e3o Paulo decidido a fazer a interven\u00e7\u00e3o. &#8220;Procurar outra opini\u00e3o \u00e9 a conduta correta&#8221;, ensina. <\/p>\n<p>Pr\u00e1tica corriqueira nos EUA, a consulta a um segundo m\u00e9dico come\u00e7a a fazer sentido para os brasileiros. Diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 senten\u00e7a irrecorr\u00edvel. M\u00e9dicos podem enganar-se e divergir entre si. O doente tem o direito de elucidar d\u00favidas. E \u00e9 livre para decidir sobre caminhos terap\u00eauticos. &#8220;A rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente mudou muito com a extin\u00e7\u00e3o daquele cl\u00ednico de fam\u00edlia consultado para qualquer gripe ou dor de cabe\u00e7a&#8221;, constata o cardiologista Ibraim Pinto, do Hospital do Cora\u00e7\u00e3o, em S\u00e3o Paulo. Raul Cutait, diretor de Oncologia do Hospital S\u00edrio Liban\u00eas, tamb\u00e9m na capital paulista, acrescenta: &#8220;A cumplicidade se perdeu com o crescimento das consultas por planos de sa\u00fade e conv\u00eanios. \u00c9 dif\u00edcil o atendimento individualizado&#8221;. O fen\u00f4meno tem duas faces: se a cumplicidade se foi, a profissionaliza\u00e7\u00e3o e a especializa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea m\u00e9dica v\u00e3o induzindo os pacientes a abdicar da rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia com o &#8220;doutor&#8221;.<\/p>\n<p>Estimular a busca da opini\u00e3o de outro especialista passa a ser uma conduta m\u00e9dica elogi\u00e1vel. \u00c9 o que aprendem hoje os alunos de certas faculdades de medicina do pa\u00eds em aulas de \u00e9tica, medicina legal ou patologia forense. Os cursos da Universidade de S\u00e3o Paulo e da Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, seguem tal linha. Mostram, de quebra, que a onipot\u00eancia profissional n\u00e3o \u00e9 bom neg\u00f3cio. Existem mais de 4 mil processos abertos pela Associa\u00e7\u00e3o das V\u00edtimas de Erros M\u00e9dicos nos \u00faltimos cinco anos. J\u00e1 levaram \u00e0 condena\u00e7\u00e3o, em primeira inst\u00e2ncia, 70% dos profissionais envolvidos. Diagn\u00f3sticos mal fundamentados acabam por gerar encrencas.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de comportamento da clientela \u00e9 impulsionada pelo sofrimento, pela esperan\u00e7a de salvar-se ou diminuir a dor de algu\u00e9m que se ama. Em novembro do ano passado, a empres\u00e1ria F\u00e1tima Capucci foi alertada pela escola sobre os problemas de aprendizado da filha Nina, uma tranq\u00fcila menina de 6 anos. Levou-a a uma neuropediatra, que prescreveu uma batelada de exames. A resson\u00e2ncia magn\u00e9tica detectou problemas na massa branca do c\u00e9rebro. A m\u00e9dica, insegura para a emiss\u00e3o de um diagn\u00f3stico, consultou outro colega. N\u00e3o chegaram a uma conclus\u00e3o. Ela recomendou tratamento fonoaudiol\u00f3gico e acompanhamento psicopedag\u00f3gico para a menina. Cismada, F\u00e1tima reuniu os exames e procurou mais um especialista em neurologia. Saiu com o diagn\u00f3stico: a filha tem uma defici\u00eancia cerebral m\u00ednima, dist\u00farbio que ser\u00e1 superado com os cuidados indicados pela primeira m\u00e9dica. &#8220;Decidi manter contato com os dois profissionais&#8221;, afirma a empres\u00e1ria. <\/p>\n<p>Diretora da cl\u00ednica de gastroenterologia do Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo, Angelita Gama defende decis\u00f5es como a de F\u00e1tima. A \u00e9tica m\u00e9dica recomenda que, diante de impasses, os profissionais consultados busquem o consenso. Cria-se a parceria dos jalecos. &#8220;Este \u00e9 o sentido da segunda opini\u00e3o&#8221;, observa. Apesar disso, ao enfrentar um drama em fam\u00edlia, Angelita n\u00e3o seguiu a regra. Ap\u00f3s o derrame cerebral que colocou sua m\u00e3e no leito de um hospital, parentes insistiram em ouvir outro neurocirurgi\u00e3o. Angelita vetou. &#8220;Sabia que nenhum profissional poderia mudar o seguinte fato: a morte dela seria inevit\u00e1vel&#8221;, explica. &#8220;Mas, se n\u00e3o fosse m\u00e9dica, correria atr\u00e1s de informa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 m\u00e9dicos que se melindram quando o paciente resolve ouvir uma segunda opini\u00e3o. &#8220;At\u00e9 entre os residentes h\u00e1 os que se incomodam&#8221;, consente Milton Arruda, chefe da gradua\u00e7\u00e3o da Faculdade de Medicina da USP. Enquanto alguns resistem, outros fazem da provid\u00eancia uma rotina. H\u00e1 os que investem em tecnologia e equipamentos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o para obter a segunda opini\u00e3o em tempo real. O Hospital S\u00edrio Liban\u00eas gastou R$ 1,5 milh\u00e3o na aquisi\u00e7\u00e3o de tr\u00eas c\u00e2meras digitais, dois v\u00eddeos e duas telas. Os aparelhos acionam o sistema de teleconfer\u00eancia e conectam o S\u00edrio ao Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, um dos mais avan\u00e7ados centros de tratamento da doen\u00e7a do planeta.<\/p>\n<p>No audit\u00f3rio do hospital paulista, 25 oncologistas, capitaneados pelo diretor do departamento de telemedicina, Frederico Costa, discutiram com o colega americano Leslei Bloungard, mestre da cirurgia hep\u00e1tica do Memorial, o caso de Nilo Costini. Engenheiro de 75 anos, com um tumor no c\u00f3lon, Nilo apresentava sinais de met\u00e1stase no f\u00edgado. Os brasileiros entendiam que a cirurgia era desnecess\u00e1ria. Foram tr\u00eas horas de debate antes da decis\u00e3o: Costini submete-se a sess\u00f5es de quimioterapia e ser\u00e1 operado dentro de 40 dias. &#8220;Est\u00e1vamos dispostos a viajar para qualquer lugar e salvar nosso pai&#8221;, diz Nilo Costini J\u00fanior, de 45 anos. &#8220;A teleconfer\u00eancia nos livrou das d\u00favidas.&#8221;<\/p>\n<p>Confrontar diagn\u00f3sticos tornou-se praxe na fam\u00edlia da professora C\u00e9lia Seidl Migalis, de 47 anos. Em 1993, seu ciclo menstrual se alterou. Perdia sangue com freq\u00fc\u00eancia. Ficou an\u00eamica. Orientada pelo ginecologista, passou a realizar exames peri\u00f3dicos para controlar a evolu\u00e7\u00e3o do mioma no \u00fatero. Como a perda sangu\u00ednea persistia, procurou um m\u00e9dico do conv\u00eanio. Ele recomendou-lhe uma histerectomia &#8211; a retirada do \u00fatero, processo cir\u00fargico realizado em 400 mil mulheres por ano no Brasil. C\u00e9lia voltou ao ginecologista, levou-lhe os resultados dos exames e ouviu conselho id\u00eantico. Operou-se pelo conv\u00eanio. A fam\u00edlia n\u00e3o teme o entra-e-sai dos consult\u00f3rios. No final do ano passado, \u00c9rica, a filha, passou por cinco deles at\u00e9 descobrir que o n\u00f3dulo no pesco\u00e7o sumiria com uma simples pun\u00e7\u00e3o. A terapia eliminou o ac\u00famulo do l\u00edquido liberado pelo rompimento do tecido de um nervo.<\/p>\n<p>C\u00e9lia e \u00c9rica pertencem \u00e0 linhagem de pacientes que n\u00e3o hesitam em procurar a terceira, a quarta ou mais opini\u00f5es. Em casos graves, a longa busca da palavra final pode ser comprometedora. &#8220;Isso significa protelar o in\u00edcio do tratamento, o que \u00e9 prejudicial&#8221;, adverte Maria Del Carmen Molina Wolgien, mastologista do Instituto Brasileiro de Controle do C\u00e2ncer. Em algumas especialidades, o desperd\u00edcio de tempo \u00e9 evitado recorrendo-se a um manual de consenso m\u00e9dico. Trata-se de um guia b\u00e1sico de cirurgias e tratamentos. A Sociedade Brasileira de Urologia realiza semin\u00e1rios, desde 1994, para atualizar seu manual. Nele, estampa as mais modernas opera\u00e7\u00f5es para deter de incontin\u00eancia urin\u00e1ria a males da pr\u00f3stata. Entre 15 e 18 de maio, os ginecologistas planejam montar o seu, num congresso em S\u00e3o Paulo. &#8220;Queremos apontar normas e t\u00e9cnicas mais apropriadas ao combate de 50 patologias&#8221;, diz Nilson Donadio, chefe do Servi\u00e7o de Fertilidade Conjugal da Santa Casa. <\/p>\n<p>Com iniciativas assim, profissionais tentam reconquistar a confian\u00e7a dos pacientes e evitar que, entre andan\u00e7as por cl\u00ednicas, a doen\u00e7a avance pelo organismo. Foi o que aconteceu a Maria, uma feirante de 34 anos, solteira, cliente de Donadio (o m\u00e9dico n\u00e3o autorizou a divulga\u00e7\u00e3o do nome da paciente). Inconformada com a descoberta de um mioma no \u00fatero e a recomenda\u00e7\u00e3o da histerectomia, Maria passou quase dois anos entrando e saindo de consult\u00f3rios. Quando Donadio a atendeu, o tumor j\u00e1 se espalhara pelo \u00fatero. Foi operada \u00e0s pressas. Conseguiu preservar os ov\u00e1rios, mas perdeu uma das duas trompas. Ao final do pesadelo, descobriu, feliz, que ainda poder\u00e1 ser m\u00e3e. A utiliza\u00e7\u00e3o do manual de consenso m\u00e9dico inibiria decis\u00f5es radicais como a da empres\u00e1ria carioca Carla Pereira, de 37 anos. Com tr\u00eas c\u00e1lculos na ves\u00edcula, ela recusava-se a ir para a mesa de cirurgia. Consultou mais tr\u00eas especialistas, ouviu respostas divergentes e, dividida, acabou seguindo o conselho de uma amiga: desmarcou a opera\u00e7\u00e3o. Acredita que pode conviver com o problema.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos brasileiros ganhariam muito se reservassem parte de suas atribuladas agendas para debater hist\u00f3ricos cl\u00ednicos com colegas. &#8220;Isso ainda \u00e9 raro&#8221;, lamenta S\u00e9rgio Simon, uma das maiores autoridades em oncologia no pa\u00eds. Em fevereiro deste ano, Simon festejou a abertura das Cl\u00ednicas Integradas de Oncologia do Hospital Albert Einstein, em S\u00e3o Paulo. Em reuni\u00f5es quase di\u00e1rias, Simon e uma equipe interdisciplinar analisam casos complicados. <\/p>\n<p>A enfermeira Rosemeire Ferreira, de 35 anos, descobriu o n\u00f3dulo no seio ao apalpar-se. Dias depois o ginecologista prescreveu-lhe quimioterapia, cirurgia e radioterapia, nessa ordem. Rosemeire estranhou a seq\u00fc\u00eancia. Seria o procedimento certo desde que ela tivesse mais de 50 anos. Levou o assunto para a cl\u00ednica interdisciplinar do Einstein. A ordem inverteu-se, come\u00e7ou pela cirurgia. Ela aprovou. Agora, acredita na cura.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Fonte: Revista \u00c9poca\/ NACIONAL<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A segunda opini\u00e3o dissemina-se nos consult\u00f3rios do pa\u00eds e confirma ser a melhor garantia contra falsos diagn\u00f3sticos e erros m\u00e9dicos Bem-humorada, com um sorriso iluminando seu rosto, Z\u00e9lia Velloso, de 56 anos, em nada lembra a mulher amarga de 1996. 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