{"id":66583,"date":"2026-03-23T15:40:10","date_gmt":"2026-03-23T18:40:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.hsj.ce.gov.br\/?p=66583"},"modified":"2026-03-23T15:40:10","modified_gmt":"2026-03-23T18:40:10","slug":"mulheres-que-vivem-com-hiv-historias-de-resiliencia-cuidado-e-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ce.gov.br\/hsj\/2026\/03\/23\/mulheres-que-vivem-com-hiv-historias-de-resiliencia-cuidado-e-esperanca\/","title":{"rendered":"Mulheres que vivem com HIV: hist\u00f3rias de resili\u00eancia, cuidado e esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-151713 size-full\" src=\"https:\/\/www.saude.ce.gov.br\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2026\/03\/BANNER-MATERIA-MC38AS-DA-MULHER.png\" alt=\"\" width=\"775\" height=\"485\" \/>Durante muito tempo, o HIV foi associado a um \u00fanico perfil: homens que se relacionam com outros homens. Um\u00a0<strong>estere\u00f3tipo<\/strong>\u00a0que n\u00e3o condiz com a realidade,\u00a0 que tem rosto, voz e hist\u00f3ria tamb\u00e9m de\u00a0<strong>mulheres<\/strong>. Todos os dias, elas convivem n\u00e3o apenas com o v\u00edrus, mas enfrentam preconceito, sil\u00eancio e invisibilidade.<\/p>\n<p>No\u00a0<strong>M\u00eas das Mulheres<\/strong>, dar espa\u00e7o a essas hist\u00f3rias \u00e9 tamb\u00e9m um ato de cuidado e reconhecimento. No\u00a0<strong>Hospital S\u00e3o Jos\u00e9 de Doen\u00e7as Infecciosas (HSJ)<\/strong>, unidade da\u00a0<strong>Secretaria da Sa\u00fade do Estado (Sesa)<\/strong>,\u00a0<strong>mulheres que vivem com HIV<\/strong>\u00a0encontram acompanhamento, acolhimento e, muitas vezes, um recome\u00e7o.<\/p>\n<h3>\u201cViver com HIV \u00e9 poss\u00edvel. Com preconceito, n\u00e3o.\u201d<\/h3>\n<p style=\"text-align: center\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-152154 size-full\" src=\"https:\/\/www.saude.ce.gov.br\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2026\/03\/mulheres-que-vivem-com-hiv-HSJ_orleanda.png\" alt=\"\" width=\"775\" height=\"485\" \/>Para Orleanda, \u00e9 importante falar que existe vida ap\u00f3s o HIV. \u201cA gente ama de novo, pode engravidar e ter um filho saud\u00e1vel, e isso precisa ser dito\u201d, comenta<\/em><\/p>\n<p>Aos 49 anos, Orleanda Gomes vive com o HIV h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas. O diagn\u00f3stico veio durante a gravidez, um momento que, para muitas mulheres, j\u00e1 \u00e9 cercado de expectativas e emo\u00e7\u00f5es. \u201cO desespero foi grande.\u00a0<strong>Eu n\u00e3o queria acreditar<\/strong>. Mas, ao mesmo tempo, eu precisava ficar bem por causa do meu filho\u201d, lembra Orleanda.<\/p>\n<p>Sem poder contar com a fam\u00edlia naquele momento, Orleanda encontrou no Hospital S\u00e3o Jos\u00e9 o suporte necess\u00e1rio:\u00a0<strong>acompanhamento m\u00e9dico, psicol\u00f3gico e social<\/strong>. Um acolhimento que, segundo ela, fez toda a diferen\u00e7a. Hoje, como representante do Movimento Nacional das Cidad\u00e3s Posithivas no Cear\u00e1, ela transforma a pr\u00f3pria hist\u00f3ria em apoio para outras mulheres.<\/p>\n<p>\u201cDo diagn\u00f3stico at\u00e9 aqui foi uma longa caminhada, ent\u00e3o, o que eu aprendi foi a\u00a0<strong>lidar com o preconceito, mas nunca normalizar<\/strong>, porque ningu\u00e9m deve fazer isso. O que mata a gente n\u00e3o \u00e9 o HIV. \u00c9 o preconceito e a exclus\u00e3o\u201d, enfatiza Orleanda.<\/p>\n<h3>Maternidade, cuidado e informa\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Assim como Orleanda, Sabrina Vieira, de 40 anos, tamb\u00e9m descobriu o HIV durante a gesta\u00e7\u00e3o. O impacto inicial foi marcado por medo e questionamentos. \u201cEu chorei muito. Pensei: por que comigo? Mas logo entendi que precisava lutar pela minha filha\u201d, recorda Sabrina.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-152165 size-full\" src=\"https:\/\/www.saude.ce.gov.br\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2026\/03\/mulheres-que-vivem-com-hiv-HSJ_sabrina.png\" alt=\"\" width=\"775\" height=\"485\" \/>O desejo de Sabrina \u00e9 que todas as mulheres que passem pelo diagn\u00f3stico positivo possam ser acolhidas e encontrar apoio da fam\u00edlia e da rede de sa\u00fade<\/em><\/p>\n<p>Com acompanhamento adequado, Sabrina iniciou o tratamento ainda na gravidez. Aos seis meses, j\u00e1 estava com\u00a0<strong>carga viral indetect\u00e1vel<\/strong>\u00a0\u2014 o que impede a transmiss\u00e3o do v\u00edrus. A filha nasceu sem HIV. \u201cQuando a gente v\u00ea que o filho n\u00e3o tem o v\u00edrus, \u00e9 um sentimento de vit\u00f3ria. \u00c9 saber que conseguiu\u201d, comenta com orgulho.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias como essa refor\u00e7am uma informa\u00e7\u00e3o essencial: mulheres que vivem com HIV podem, sim, viver a maternidade com seguran\u00e7a, desde que tenham\u00a0<strong>acesso ao diagn\u00f3stico precoce<\/strong>\u00a0e ao\u00a0<strong>tratamento adequado<\/strong>.<\/p>\n<p>De acordo com o m\u00e9dico infectologista do HSJ, Luan Victor, quando uma mulher que vive com HIV segue o tratamento regularmente e mant\u00e9m a carga viral indetect\u00e1vel, o risco de\u00a0<strong>transmiss\u00e3o vertical<\/strong>\u00a0\u2014 ou seja, durante a gesta\u00e7\u00e3o ou no parto \u2014 \u00e9 muito baixo.<\/p>\n<p>\u201cEsse risco fica pr\u00f3ximo de zero, principalmente quando s\u00e3o adotadas medidas preventivas espec\u00edficas, como o acompanhamento pr\u00e9-natal adequado, o monitoramento da carga viral ao longo da gravidez, os cuidados indicados durante o parto, o uso de medicamentos preventivos no rec\u00e9m-nascido e n\u00e3o amamentar o beb\u00ea com o leite materno. Com a realiza\u00e7\u00e3o de todos esses cuidados, hoje\u00a0<strong>j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel prevenir completamente a transmiss\u00e3o do HIV da m\u00e3e para o beb\u00ea<\/strong>, permitindo que mulheres que vivem com HIV realizem o sonho de ter uma maternidade segura\u201d, destaca o especialista.<\/p>\n<h3>Entre o abandono e a for\u00e7a<\/h3>\n<p>Para muitas mulheres, o diagn\u00f3stico n\u00e3o vem sozinho. Ele revela rela\u00e7\u00f5es fragilizadas, desigualdades e, em alguns casos, viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Ana Paula Albuquerque, hoje com 62 anos, recebeu o diagn\u00f3stico em 1990, quando ainda se sabia pouco sobre o v\u00edrus e as possibilidades de tratamento. Na \u00e9poca, morava em Macei\u00f3 (AL) e decidiu fazer o teste diante do uso de drogas pelo marido. \u201cNaquele tempo, era uma senten\u00e7a de morte. Fiquei muito abalada quando soube, achava que ia morrer no outro dia\u201d, comenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-152164 size-full\" src=\"https:\/\/www.saude.ce.gov.br\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2026\/03\/mulheres-que-vivem-com-hiv-HSJ_ana-paula.png\" alt=\"\" width=\"775\" height=\"485\" \/>Para Ana Paula, independentemente das dificuldades, o mais importante \u00e9 sempre seguir em frente buscando sa\u00fade, bem-estar e felicidade<\/em><\/p>\n<p>M\u00e3e de dois filhos pequenos, Ana Paula encontrou neles a for\u00e7a para seguir. Mas tamb\u00e9m enfrentou o\u00a0<strong>preconceito dentro da pr\u00f3pria fam\u00edlia<\/strong>\u00a0e a dor de ser\u00a0<strong>culpabilizada pelo companheiro<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201c<strong>Eu levantei a cabe\u00e7a e fui viver<\/strong>. Primeiro por mim, depois pelos meus filhos. Ap\u00f3s um tempo, eu fiquei vi\u00fava. Quando o luto passou, eu tinha muito medo de me relacionar com pessoas que n\u00e3o vivem com HIV por medo do preconceito. Mas eu continuei minha vida como mulher. Sempre me cuidei, sempre gostei de maquiagem, de batom, nunca deixei de cuidar de mim\u201d, recorda Ana Paula.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria dela inclui perdas, reca\u00eddas e recome\u00e7os \u2014 at\u00e9 encontrar, no acompanhamento de sa\u00fade e em redes de apoio, um\u00a0<strong>caminho de reconstru\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>O infectologista Luan Victor explica que \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel seguir em relacionamentos e prevenir a transmiss\u00e3o. Ele refor\u00e7a o conceito \u201cI=I\u201d, que significa Indetect\u00e1vel = Intransmiss\u00edvel, refor\u00e7ando que pessoas que vivem com HIV e t\u00eam a carga viral indetect\u00e1vel, confirmada por dois testes em um intervalo de seis meses, n\u00e3o transmitem o v\u00edrus e nem correm o risco de desenvolver aids.<\/p>\n<p>\u201cIsso significa que, nessas condi\u00e7\u00f5es, mesmo em rela\u00e7\u00f5es sexuais sem preservativo, n\u00e3o h\u00e1 risco de transmiss\u00e3o do HIV. O uso da camisinha continua sendo recomendado para prevenir outras Infec\u00e7\u00f5es Sexualmente Transmiss\u00edveis como a s\u00edfilis ou a gonorreia, por exemplo, mas no que diz respeito ao HIV, Indetect\u00e1vel = Intransmiss\u00edvel\u201d, afirma.<\/p>\n<h3>Sa\u00fade mental e acolhimento fazem a diferen\u00e7a<\/h3>\n<p>O impacto emocional do diagn\u00f3stico ainda \u00e9 um dos maiores desafios. Medo, culpa, isolamento e depress\u00e3o fazem parte da realidade de muitas mulheres. Por isso,\u00a0<strong>o acolhimento \u00e9 fundamental<\/strong>. Sabrina, que hoje tamb\u00e9m apoia outras mulheres rec\u00e9m-diagnosticadas, refor\u00e7a: \u201cNo come\u00e7o, muitas querem desistir de tudo. E o que elas mais precisam \u00e9 de escuta, de acolhimento, de algu\u00e9m que diga que\u00a0<strong>elas n\u00e3o est\u00e3o sozinhas<\/strong>\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>No ambulat\u00f3rio do Hospital S\u00e3o Jos\u00e9, al\u00e9m do tratamento com o m\u00e9dico infectologista e da medica\u00e7\u00e3o, o cuidado envolve uma equipe multiprofissional \u2014 com psic\u00f3logos, assistentes sociais e profissionais preparados para atender de forma humanizada.<\/p>\n<h3>Rede de apoio: ningu\u00e9m precisa enfrentar sozinha<\/h3>\n<p style=\"text-align: center\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-152163 size-full\" src=\"https:\/\/www.saude.ce.gov.br\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2026\/03\/mulheres-que-vivem-com-hiv-HSJ.png\" alt=\"\" width=\"775\" height=\"485\" \/>Acolhimento e apoio m\u00fatuo s\u00e3o essenciais para conseguir renovar as for\u00e7as e o equil\u00edbrio mental necess\u00e1rio para seguir a vida<\/em><\/p>\n<p>Foi nesse ambiente que Orleanda encontrou n\u00e3o apenas tratamento, mas tamb\u00e9m prop\u00f3sito. \u201cEu me encontrei no Movimento Nacional das Cidad\u00e3s Posithivas. Hoje, quero ser essa voz para outras mulheres que ainda n\u00e3o conseguem falar\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Orleanda destaca que o HIV ainda \u00e9 cercado por estigmas \u2014 especialmente quando se trata de mulheres. \u201cMuita gente ainda acha que \u00e9 uma doen\u00e7a de homens gays. Mas o HIV n\u00e3o escolhe g\u00eanero e nem sexualidade. O HIV n\u00e3o tem cara. Ele pode estar do lado de qualquer pessoa\u201d, destaca.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio, muitas vezes, \u00e9 consequ\u00eancia do medo do julgamento. \u201c<strong>Muitas mulheres querem falar, mas se calam por medo do preconceito<\/strong>.\u201d<\/p>\n<h3>\u201cTem vida ap\u00f3s o diagn\u00f3stico\u201d<\/h3>\n<p>Com os avan\u00e7os da ci\u00eancia, o HIV hoje \u00e9 uma\u00a0<strong>condi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica trat\u00e1vel<\/strong>. Com o uso correto da medica\u00e7\u00e3o, a pessoa pode alcan\u00e7ar a carga viral indetect\u00e1vel \u2014 o que significa que n\u00e3o transmite o v\u00edrus. Ainda assim, o preconceito segue como uma das maiores barreiras. \u201cA gente avan\u00e7ou muito no tratamento, mas n\u00e3o avan\u00e7ou na mesma propor\u00e7\u00e3o contra o preconceito\u201d, refor\u00e7a Orleanda.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias dessas mulheres mostram que o HIV n\u00e3o define quem elas s\u00e3o. Elas s\u00e3o m\u00e3es, trabalhadoras, lideran\u00e7as, mulheres que amam, recome\u00e7am e seguem em frente.<\/p>\n<p>\u201cTem vida ap\u00f3s o diagn\u00f3stico\u201d, diz Orleanda.<\/p>\n<p>\u201cEu sou outra pessoa depois do HIV\u201d, completa Sabrina.<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o fossem meus filhos, eu n\u00e3o estaria aqui\u201d, afirma Ana Paula.<\/p>\n<p>Mais do que sobreviver, elas resistem e transformam suas trajet\u00f3rias em\u00a0<strong>caminhos de esperan\u00e7a para outras mulheres<\/strong>. Falar sobre mulheres que vivem com HIV \u00e9 romper sil\u00eancios, combater estigmas e garantir que nenhuma hist\u00f3ria seja invisibilizada. Porque por tr\u00e1s de cada diagn\u00f3stico, existe uma vida que merece ser vivida com dignidade, cuidado e respeito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante muito tempo, o HIV foi associado a um \u00fanico perfil: homens que se relacionam com outros homens. Um\u00a0estere\u00f3tipo\u00a0que n\u00e3o condiz com a realidade,\u00a0 que tem rosto, voz e hist\u00f3ria tamb\u00e9m de\u00a0mulheres. Todos os dias, elas convivem n\u00e3o apenas com o v\u00edrus, mas enfrentam preconceito, sil\u00eancio e invisibilidade. 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