Toque, escuta e cuidado: painel sensorial amplia acolhimento a crianças atípicas na Vila Social do Canindezinho

Recurso com estímulos táteis e visuais contribui para conforto e apoio durante os atendimentos.
Na recepção da Vila Social Canindezinho, o tempo de espera ganhou um novo significado. Onde havia inquietação, agora há toque, cor e descoberta. Um painel sensorial, construído de forma coletiva por profissionais da unidade e crianças e seus familiares, passou a integrar o cotidiano do espaço como ferramenta de acolhimento, especialmente para crianças atípicas.

A iniciativa nasceu da observação da equipe. Segundo Mirela Rodrigues, assistente social da Vila, a ideia surgiu a partir de um beneficiário com hiperfoco em ar-condicionado. “Aquilo fez a gente refletir sobre os hiperfocos e as formas como cada criança se conecta com o mundo”, conta.
Durante uma oficina, crianças deixaram impressas suas mãos na estrutura, escolheram elementos e participaram da montagem. “Era importante que elas também se vissem ali. Não só como usuárias, mas como parte da construção”, explica Mirela.

É o caso da Laura Kettelyn Gomes, de 9 anos. Tímida, mas cheia de gostos bem definidos, ela prefere se expressar aos poucos. Gosta de cantar, escuta de rock a sertanejo e participou diretamente da criação do painel. “Eu coloquei a mão na parede… escolhi os objetos que iam ficar lá”, conta, com um sorriso contido.
A mãe, Joelma dos Santos, acompanha de perto o desenvolvimento da filha, que tem Síndrome de Down. “Com a Laura, a vida ganhou outro sentido”, diz. Frequentando a Vila há um ano e meio, a menina já participava de atividades como o balé, mas encontrou no espaço novas possibilidades de crescimento. “Ela já era desenvolvida, mas aqui evoluiu ainda mais. Participa de tudo, adora os passeios.”

A experiência também atravessa a rotina de Carlos Eduardo, de 11 anos, conhecido como Cadu. Frequentador da Vila desde o início da atividade, ele divide o tempo entre o jiu-jitsu, o futebol e um interesse que chama atenção: carros. “Gosto dos quadrados… Maverick, Santana”, diz, com firmeza, os modelos dos seus carros preferidos.
Diagnosticado com TDAH, Cadu é acompanhado de perto pela avó, que assumiu seus cuidados ainda no primeiro ano de vida. Ela relembra os desafios iniciais, marcados por dúvidas e dificuldades na escola. “No começo, a gente acha que é só comportamento. Depois vai entendendo que é diferente”, conta.
Com o acompanhamento da Vila, o olhar também mudou. “Hoje a gente tem mais paciência. Entende melhor. E ele melhorou muito com as terapias”, afirma.

Do ponto de vista técnico, a psicóloga Agda Nascimento explica que o recurso atua diretamente nos processos de regulação emocional. “Muitas crianças com Transtorno do Espectro Autista têm hipersensibilidade. Sons e estímulos que são comuns para a gente podem ser intensos para elas”, explica.
Nesse contexto, o painel funciona como um suporte. Com diferentes texturas e possibilidades de interação, permite que a criança explore sensações de forma gradual. “Ele ajuda na autorregulação, principalmente em momentos de desregulação emocional”, destaca.
Além disso, o painel também cumpre um papel coletivo. Por estar em um espaço comum, pode ser utilizado por todas as crianças, promovendo convivência e ampliando o entendimento sobre as diferenças. “É uma forma de sensibilizar. Mostrar que existem várias maneiras de sentir e perceber o mundo”, completa a psicóloga.
Vilas sociais
As Vilas Sociais, geridas pela Secretaria da Proteção Social (SPS) do Governo do Estado, substituem as Vilas Olímpicas, atuando como espaços de inclusão e fortalecimento de vínculos comunitários. Oferecem atividades de esporte, cultura, lazer e qualificação profissional para todas as idades (crianças, jovens, adultos e idosos). Os equipamentos contam com academia ao ar livre, brinquedopraça, areninha, quadras (areia e poliesportiva), e salas (ritmos, informática e multiuso), estando disponíveis para projetos da comunidade.
A primeira Vila Social foi inaugurada em junho de 2024, no Genibaú, seguida por Canindezinho e Messejana, em julho do mesmo ano. Em abril de 2026, Juazeiro do Norte recebeu a primeira unidade no interior. A coordenação é da SPS, com apoio das secretarias do Esporte e da Juventude.
Serviço
Vila Social Canindezinho
Endereço: Av. Osório de Paiva, 6200, Canindezinho, Fortaleza
Horários de funcionamento: Domingo a domingo: 7h às 21h