Oficinas regionalizadas discutem combate ao racismo e atendimento a povos tradicionais no Suas

Reconhecer identidades, respeitar modos de vida e garantir acesso a direitos. Esses foram alguns dos temas debatidos durante a IV Oficina Regionalizada sobre Trabalho Social com Famílias de Povos Originários, Comunidades Tradicionais e Grupos Populacionais Tradicionais e Específicos na Política de Assistência Social, realizada nesta terça-feira (19), na Acrópole Centro de Treinamento e Eventos.
Promovido pela Secretaria da Proteção Social (SPS), em parceria com a Secretaria dos Povos Indígenas (Sepince) e Secretaria da Igualdade Racial (Seir), o encontro reuniu técnicos e gestores da assistência social da Região Metropolitana de Fortaleza para discutir estratégias de acolhimento, enfrentamento ao racismo e qualificação do atendimento às populações tradicionais no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (Suas).
A programação contou com palestras, painéis temáticos e apresentações culturais. As atividades seguem nesta quarta-feira (20), com assessoramento técnico aos municípios sobre temas prioritários da assistência social.
Presente no evento, a coordenadora da Gestão do Suas, Célia Melo, explicou que a edição encerra o quarto ciclo das oficinas regionalizadas realizadas nas 14 regiões administrativas de planejamento do Ceará. Segundo ela, a iniciativa busca fortalecer o atendimento às populações tradicionais e ampliar o acesso desse público às políticas públicas. “Esse público é prioritário na política de assistência social. A assistência social, obviamente, é para todos que necessitam dela, mas a gente tem que priorizar comunidades que estão mais propensas à situação de vulnerabilidade e risco pessoal e social”, destacou.
Célia destacou ainda que povos originários e comunidades tradicionais enfrentam contextos mais recorrentes de vulnerabilidade e violações de direitos. “Não adianta a gente fazer um trabalho social com essas comunidades se a gente não respeita os valores delas, impõe os nossos valores em cima das comunidades. Por isso que o planejamento tem que ser feito junto. Não pode ser feito para, tem que ser feito com”, completou.
Entre os principais pontos debatidos durante a oficina esteve o enfrentamento ao racismo no atendimento socioassistencial. Secretária da Igualdade Racial do Ceará, Zelma Madeira ressaltou a importância da formação continuada dos profissionais que atuam diretamente nos territórios. “A gente tem que ver o que foi que a gente amadureceu. Eu sei que as equipes mudam e a gente tem que estar sempre se atualizando, mas é nesse propósito de vir trabalhar o que é que significa fazer um trabalho com famílias nessa pluralidade étnica que é a realidade brasileira e do Ceará”, afirmou.
Representando a Secretaria dos Povos Indígenas, o orientador da Célula de Movimentos Indígenas, Nailton Tapeba, enfatizou a importância da qualificação dos profissionais do Suas para atuação nos territórios tradicionais. “Os povos originários são de grupos prioritários na política do Suas. Então, para isso os profissionais têm que estar capacitados, orientados, para poder replicar essa política com eficiência dentro dos territórios onde inúmeras dificuldades a gente enfrenta”, disse.

A oficina reuniu profissionais que atuam diretamente no atendimento às famílias nos municípios cearenses. Técnica de referência e psicóloga do Creas de Paracuru, Bárbara Luna destacou que a formação amplia o olhar dos profissionais sobre os impactos do racismo e das violências no cotidiano das famílias atendidas. “A gente vive em uma sociedade que ainda é racista, então eu acho que esses debates fomentam muito essa aproximação com outras culturas e sensibilização também, para a gente conseguir perceber o impacto que o racismo e essas violências tem no cotidiano das pessoas que são atendidas pelo serviço da assistência social”, afirmou.
Segundo Bárbara, o município atende diferentes grupos tradicionais, entre eles povos indígenas, povos de terreiro, marisqueiras, pescadores e agricultores. Ela explica que um dos desafios ainda é identificar esse público dentro da rede socioassistencial, especialmente em situações de violações de direitos. “Esse tipo de oficina é muito importante para que a gente possa ter mais condições de fazer um trabalho que não compactue com as lógicas que a gente vive hoje, do racismo e da violência também contra as mulheres. Dialogar sobre isso já auxilia no nosso trabalho, estar com outros profissionais e com outros municípios também percebendo a realidade do cotidiano”, completou.

Já a coordenadora do Cras Indígena de Aquiraz, Elisangela Soares, relatou mudanças percebidas no território após as oficinas regionalizadas. “Eu já participei de duas edições, estou na terceira edição agora. Após essas oficinas, a gente teve uma grande mudança no território”, afirmou.
Segundo ela, o equipamento passou a direcionar o atendimento prioritariamente às famílias indígenas, ampliando ações específicas, como grupos de mulheres, idosos e serviços de convivência voltados para essa população.
A profissional também ressaltou o papel das formações na atuação cotidiana das equipes. “É sempre importante a gente estar se atualizando, estar vendo como essas famílias vivem, quais realmente as vulnerabilidades, onde a gente consegue alavancar o próprio PAIF e os serviços. Quando você está aqui ouvindo, você multiplica cada vez mais esse trabalho que deve ser feito, como ele deve ser feito, como ele deve estar atuando realmente dentro dos territórios”, disse.
Desde 2022, mais de 2,5 mil técnicos já foram capacitados na temática pela SPS. Entre os resultados apontados pela pasta estão o aumento do número de famílias de grupos populacionais tradicionais e específicos inscritas no Cadastro Único no Ceará, além da produção de pesquisas e cadernos de orientações técnicas voltados ao trabalho social com essas populações.