Psiquiatra do HRVJ explica que a dependência do álcool é uma doença crônica, influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais

O consumo frequente e sem controle de álcool pode evoluir para dependência e causar prejuízos à saúde, às relações familiares e à vida social. Por isso, é importante observar sinais como aumento da frequência, dificuldade de reduzir o uso e manutenção do consumo mesmo diante de consequências negativas. Foi o que aconteceu com Cláudio Paiva [nome fictício], 29, solteiro e natural de Morada Nova. Ele ingeriu bebida alcoólica pela primeira vez aos 10 anos, por sugestão de um primo. Conta que, no início, recusou, mas a curiosidade falou mais alto. “Eu bebi, gostei, fiquei bêbado e fui dormir”, relata.
O uso abusivo de álcool pode desestruturar famílias e provocar danos individuais e coletivos. Internado no Hospital Regional Vale do Jaguaribe (HRVJ), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Cláudio conta que vendeu vários bens para manter o consumo, além de usar parte da renda para pagar dívidas em bares da cidade. Além de pacientes com uso abusivo de álcool, a unidade também recebe pessoas em tratamento pelo uso de outras substâncias.
“Eu tinha uma moto que comprei por R$ 7 mil e vendi por R$ 500, além de uma TV que comprei por R$ 3 mil e vendi por R$ 200 para comprar bebida”. O relato mostra uma realidade comum na vida de pessoas com dependência do álcool: a venda de bens pessoais por valores muito abaixo do mercado para sustentar o consumo.

Além da bebida, ele também trata o uso de nicotina. Cláudio relata que a internação partiu de um pedido feito por ele próprio ao pai, que o levou à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) depois de passar vários dias seguidos bebendo. Da UPA, o paciente foi transferido, no último dia 16, para o HRVJ, onde passou a receber acompanhamento especializado com médicos psiquiatras.
“O conselho que eu deixo para quem bebe é que pare. Que Deus possa libertar, pois não tem futuro. Isso não é vida para ninguém, só provoca desmantelo e gasto de dinheiro, além de não conseguir nada na vida”, pondera o paciente. Em uso de medicamentos, Paiva conta que, desde então, não sente mais vontade de consumir álcool ou nicotina.
Quando procurar ajuda?
A médica psiquiatra e coordenadora do setor, Madalena Tavares, ressalta que alguns sinais de alerta incluem a necessidade de beber cada vez mais para obter o mesmo efeito, dificuldade de controlar a quantidade ingerida, tentativas frustradas de reduzir ou interromper o consumo, vontade intensa de beber, que chama-se de fissura, além da persistência do uso mesmo diante de consequências negativas, como conflitos familiares, problemas financeiros, acidentes, dificuldades profissionais ou doenças relacionadas ao álcool.
“A ajuda médica deve ser procurada sempre que o consumo de álcool estiver causando sofrimento ou prejuízos para a pessoa ou para aqueles que convivem com ela. Não é necessário esperar que o problema se torne grave para buscar tratamento. Quanto mais precoce for a intervenção, maiores são as chances de recuperação e menores os riscos de complicações”, explica Madalena.