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Pesquisador faz estudo sobre urbanização e meio ambiente do litoral de Fortaleza

Pesquisador faz estudo sobre urbanização e meio ambiente do litoral de Fortaleza

Da Agência Funcap

Por Sílvio Mauro

Apesar do ritmo intenso de ocupação da faixa litorânea da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), ela ainda contém áreas muito bem preservadas. É preciso, no entanto, adequar os planos diretores dos municípios que a compreendem (Fortaleza, Caucaia, Aquiraz e São Gonçalo do Amarante), à nova realidade de grandes empreendimentos imobiliários e obras estruturantes que estão previstos ou sendo instalados, para que seja garantida a conservação dessas áreas remanescentes.

Essas são algumas das conclusões obtidas com o estudo realizado pelo pesquisador Almir Farias, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DAU) da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele analisou, durante cerca de dois anos, os planos diretores dos municípios da RMF que têm zona litorânea, o processo de ocupação dessa área a partir de 2000 e as políticas e a legislação de desenvolvimento urbano das três instâncias (federal, estadual e municipal). Ao todo, a área estudada compreende cerca de 110 km de costa.

O trabalho “Urbanização e meio ambiente em zona litorânea metropolitana” recebeu apoio da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) através do Programa Primeiros Projetos (PPP). De acordo com o pesquisador, ele tem, entre seus objetivos, oferecer contribuição para os estudos de planejamento urbano e regional e fornecer soluções práticas para solucionar problemas urbanos e ambientais em litorais metropolitanos para agentes públicos e privados com interesse na área.

Um dos aspectos observados no estudo, segundo ele, é que Fortaleza teve um modelo particular de ocupação, em relação a outras grandes capitais litorâneas: a predominância de urbanização popular e espontânea da orla. Enquanto em um setor da área leste da cidade, onde ficam bairros como Meireles, Praia de Iracema e Aldeota, se concentrou a parte mais nobre, no setor oeste, na faixa que vai da Barra do Ceará à Escola de Aprendizes Marinheiros, no bairro do Jacarecanga, os primeiros moradores foram pessoas que vieram do interior fugindo da seca e acabaram naquela área por falta de opção (e de interesse do mercado imobiliário por ela).

Essa faixa de litoral – diferentemente do setor nobre – cresceu sem nenhuma infra-estrutura urbana e só recentemente começou a receber mais atenção dos órgãos públicos. É lá que fica o projeto Vila do Mar, da Prefeitura de Fortaleza, que irá remover casas de áreas de risco e construir uma nova avenida litorânea. Para o pesquisador, essa ocupação histórica feita pela população de baixa renda deve manter algumas peculiaridades, mesmo com a intervenção do poder público. A previsão do pesquisador é de que não deve acontecer o mesmo processo de verticalização do litoral leste.

“Acho pouco provável, porque os moradores estão muito articulados. Se houver alguma tentativa nesse sentido, deve haver resistência”, afirma. Ele lembra, ainda, a expectativa de que essa área, junto com o bairro Serviluz, no começo da Praia do Futuro, seja definida como uma das Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis), o que deve ajudar a impedir (ou ao menos dificultar) a especulação imobiliária.
Sobre a especulação, o estudo realizado apurou que ela tem sido a prática mais freqüente na ocupação do litoral da RMF. “Há um modelo muito perverso. Localidades como Porto das Dunas e Pecém estão em um processo predatório que avança sobre dunas, lagoas e áreas de preservação”, ressalta Almir. Outro problema detectado, de acordo com ele, é que o expediente mais corriqueiro é o de privatização da orla, sem que sejam deixadas faixas de área livre. Ainda na área do Pecém, o pesquisador afirma que, quando foi projetado o complexo industrial e portuário, uma área de preservação foi definida no entorno. Mas já há registros de ocupações irregulares.

Marco regulatório existe, mas fiscalização e integração precisam melhorar
Um dos objetos de análise da pesquisa foi o Projeto de Gestão Integrada da Orla Marítima (Projeto Orla), uma iniciativa conjunta de estados, municípios e dos ministérios do Meio Ambiente e do Planejamento, Orçamento e Gestão que busca ordenar os espaços litorâneos sob domínio da União. Na avaliação de Almir Farias, no que se refere à definição de políticas públicas e legislação, o litoral está bem assistido. O que precisa melhorar é a integração entre as instâncias (federal, estadual e municipal).

“Falta, em particular, uma instância supralocal de planejamento metropolitano. O equilíbrio entre urbanização e meio ambiente somente será alcançado se considerarmos a zona litorânea como um território contínuo, sintonizando os projetos estruturantes municipais a partir de princípios comuns”, afirma. Ele lembra, por exemplo, que o Projeto Orla só foi realizado, até o momento, em Fortaleza, não havendo previsão em relação aos outros municípios da RMF.

Para o pesquisador, houve avanços no que se refere ao marco regulatório e à criação de diferentes mecanismos de controle direto, mas alguns entraves ainda persistem. Sobre a legislação, por exemplo, ele ressalta que não faltam regras definindo espaços como áreas de proteção e reservas extrativistas. “É impressionante a quantidade de leis e projetos”, diz o pesquisador. Almir também lembra que foram criados conselhos municipais e estaduais. “O problema é a atuação irregular e pouco mobilizadora. A população não chega a saber das decisões dos conselhos e muitas denúncias caem no vazio”.

Por fim, Almir Farias destaca que a gestão urbanística e ambiental e a fiscalização no cumprimento das leis deveriam considerar toda a complexidade dos diferentes ecossistemas. Ele afirma que um resort, por exemplo, quando vai ser construído, diz que vai reservar 45% do terreno para áreas verdes. Mas não são levados em conta a fauna, a flora e os recursos hídricos que se estendem pelo entorno e vão além da delimitação do lote. “Não dá para pensar nessas regiões isoladamente”.