“Sou +”: projetos educacionais da ESP/CE promovem a inclusão e valorizam a diversidade no SUS

Entre as vivências pessoais e a atuação na saúde, Andie Lima – na foto, durante o curso de Letramento de Gênero da ESP/CE – constrói uma trajetória marcada pelo acolhimento e pela resistência

A passabilidade trans é a capacidade de uma pessoa transgênero ou travesti ser vista e reconhecida socialmente de acordo com a identidade de gênero à qual se identifica, sem que a condição trans seja necessariamente percebida.
Foi somente por volta dos 25 anos que Andie Lima, natural de Fortaleza (CE), conseguiu abraçar a própria identidade e passar pela transição de gênero, já como jovem adulta e recém-formada em Psicologia, quando iniciava o mestrado. “Com pouca passabilidade”, os principais desafios dela foram lidar com constrangimentos e questionamentos no cotidiano, além de tentar, de forma constante, inserção no mercado de trabalho.
“Era e é impossível esconder que sou uma pessoa trans. Então, todo dia que acordo e socializo, preciso explicar quem sou ou enfrentar tratamentos errôneos”, explica.
O relato da profissional, que também é ativista, levanta uma discussão antiga e, ao mesmo tempo, atual: os impasses vivenciados diariamente pela comunidade LGBTI+.
Nesse contexto, a formulação de políticas públicas que garantam o acesso à educação, ao trabalho e, principalmente, à saúde é fundamental para aquelas pessoas que traduzem as múltiplas formas de existir, amar e pertencer.
Há cerca de dez anos, a Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE), autarquia vinculada à Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), tem sido uma importante aliada na promoção da inclusão e da valorização da diversidade, desenvolvendo ações educacionais de alto impacto no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
O trabalho desenvolvido pela instituição alcança transversalmente profissionais de saúde e aqueles e aquelas que utilizam os serviços.
Pela ESP/CE, Andie não só participou de seminários e cursos, como também foi facilitadora numa qualificação de Letramento de Gênero, realizada em 2025, em Caucaia, na Grande Fortaleza.
“Com esses cursos, eu visualizo uma janela de oportunidades porque, muitas vezes, o profissional tem uma atuação cristalizada, engessada, e acredita que, na cidade dele, nunca atenderá um homem gay ou uma mulher trans. Então, pensa: ‘para quê vou precisar aprender sobre isso?’ Quando, na verdade, esse pensamento deslegitima a produção de conhecimento e reafirma preconceitos. Inserir essas capacitações de forma frequente nos ajuda a transformar visões e promover mudanças de pensamento“, pontua Lima.

Andie Lima (à direita), durante participação no Seminário de Boas Práticas para a Atenção em Saúde às Pessoas Transgênero, promovido pela ESP/CE, em 2025
Das vivências da infância às da atuação na saúde pública
Andie veio de uma família religiosa e teve como marcador importante da infância a separação dos pais. Ela relata ter enfrentado dificuldades para compreender as mudanças do próprio corpo ao longo do tempo. Hoje, aos 32 anos, reconhece que encontrou acolhimento e rede de apoio, sobretudo em núcleos de amizade. “Até hoje os meus pais não compreendem a minha identidade de gênero e vivo uma vida mais reclusa deles”.
Atualmente, a profissional atua como psicóloga na Equipe Multiprofissional da Atenção Primária à Saúde (eMulti) do Distrito Sanitário 3, no município de Caucaia. O primeiro emprego foi como agente social “Mais Infância”, vinculado à Secretaria da Proteção Social do Estado (SPS). Em seguida, atuou no Serviço Ambulatorial Transdisciplinar para Pessoas Transgênero (Sertrans), à época no Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM), unidade da Sesa (hoje, no Hospital Universitário do Ceará HUC). Depois, assumiu a coordenação do serviço e foi convocada para assumir o cargo de psicóloga, já que havia sido aprovada no concurso público também de Caucaia, onde exerce atualmente a função.
Da porta de casa à rua, o preconceito

Beneficiário de programas sociais, Eduardo Braga atua no atendimento a famílias em situação de vulnerabilidade, oferecendo acolhimento, orientação e acesso a direitos
“A minha mãe é a minha maior referência como ser humano. Ela sempre recebeu outras pessoas LGBT [sic] em casa. Gosto sempre de lembrar que a melhor amiga dela era uma travesti e eu, quando criança, naturalizei tudo. Cresci em um ambiente de acolhimento.”

Os olhos do assistente social Eduardo Braga, homem gay, 33, brilham ao falar da mãe. A educação recebida em casa o fortaleceu em relação à própria sexualidade e o preparou para enfrentar o preconceito e a LGBTfobia que, segundo ele, muitas vezes não se manifestam de forma explícita, mas de maneira velada, em gestos e palavras sutis. “Por ter crescido com liberdade para conversar sobre o tema com a minha mãe, sempre senti que o racismo me atingiu de forma mais intensa do que o preconceito relacionado à minha sexualidade”, afirma.
Beneficiário de programas sociais, Eduardo também frequentou o Centro Social Urbano (CSU), equipamento público comunitário voltado à promoção da inclusão, da integração social e da melhoria da qualidade de vida.
Na época do vestibular, foi aprovado nos cursos de Direito e Serviço Social. Optar pela área socioassistencial, segundo ele, no entanto, teve relação direta com a própria trajetória. “O que foi determinante para a minha escolha foi ter sido usuário da política de assistência. Talvez o mais interessante fosse atuar como técnico dessa mesma política”, relembra.
Hoje, ele atua no Centro de Referência da Assistência Social (Cras), onde é responsável por atender famílias em situação de vulnerabilidade, oferecendo acolhimento, orientação e acesso a direitos, programas sociais e benefícios.
Em maio passado, Eduardo foi aluno do Curso de Estratégias de Cuidados à Saúde e Direitos das Pessoas LGBTQIAPN+, Mulheres Cis e Pessoas Vivendo com HIV/AIDS, realizado pela ESP/CE, em parceria com a Sesa. A capacitação ocorreu em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe.
Segundo Braga, participar do projeto foi muito importante para aperfeiçoar a própria rotina de trabalho. Veja:
Também foram contemplados pela iniciativa enfermeiros, psicólogos e profissionais da Atenção Básica à Saúde (ABS), do Cras e do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas).
Conhecimento que aperfeiçoa o cuidado
De 2016 a 2025, mais de 300 profissionais participaram das capacitações da ESP/CE com foco na temática LGBTQIAPN+.
Alguns dos cursos integram o Projeto de Educação Permanente em Equidade em Saúde, que busca qualificar as equipes de saúde para a implementação de práticas mais inclusivas, humanizadas e equitativas. Temas relacionados a gênero, à diversidade, aos direitos humanos, ao enfrentamento às discriminações e à atenção integral à saúde de populações em situação de vulnerabilidade embasam os ciclos de aprendizagem.
Segundo a diretora de Educação Permanente e Profissional em Saúde da autarquia, Érika Nicolau, ao longo desse período, as iniciativas foram ampliadas e atualizadas para contemplar uma abordagem mais abrangente. “Fomos incorporando discussões, principalmente sobre o acesso aos serviços e enfrentamento das desigualdades”. Ouça mais detalhes da fala da gestora:

Para os próximos anos, a expectativa é dar continuidade e ampliar as ações educacionais voltadas ao público LGBTI+, além de fortalecer parcerias com áreas técnicas da Sesa, movimentos sociais, instituições de ensino e outros atores estratégicos.
Mês do Orgulho LGBTI+
O Mês do Orgulho é celebrado em junho para reafirmar a busca por direitos, respeito e visibilidade da população LGBTI+. A data homenageia a Revolta de Stonewall, marco histórico de 1969 que impulsionou o movimento civil moderno em todo o mundo. No Brasil, a mobilização anual reforça o compromisso das instituições com a dignidade humana e com a proteção contra todas as formas de preconceito.