Matérias Especiais

“Sou +”: Hospital Estadual Leonardo Da Vinci realiza cirurgia de feminização da voz pelo SUS e fortalece inclusão da população trans no Ceará

#Ceará#Feminização da voz#Helv#Hospital Estadual Leonardo Da Vinci (Helv)#LGBTI+#Pessoas trans#Série Sou + Mês do Orgulho 2026#Serviço especializado Helv
“Sou +”: Hospital Estadual Leonardo Da Vinci realiza cirurgia de feminização da voz pelo SUS e fortalece inclusão da população trans no Ceará
Texto: Ívina Sales (Ascom Helv)
Fotos: Ívina Sales e Naiara Carneiro (Ascom HRC)

A voz é uma importante forma de expressão da identidade. Para as mulheres trans, ela também está relacionada ao pertencimento, à segurança e ao reconhecimento social. E, na Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), a cirurgia de feminização da voz é uma realidade para pacientes cearenses que utilizam o Sistema Único de Saúde (SUS). A chamada glotoplastia de Wendler é realizada pelo Hospital Estadual Leonardo Da Vinci (Helv) e integra o processo transexualizador, ampliando o acesso à saúde para a população trans.

Entre as pacientes que passarão pela cirurgia no próximo mês de julho estão a assistente social Sophia Leite, de 30 anos, e a agente administrativa Thaísa Gondim, de 44 anos. Para ambas, a possibilidade de realizar o procedimento pelo SUS representa um marco em suas trajetórias.

A assistente social Sophia Leite está entre as pacientes que realizarão a cirurgia de feminização da voz pelo SUS

“Para mim, essa é uma conquista primeiramente pessoal, porque sempre me senti incomodada com minha voz; e social, porque é bom perceber que o Estado nos vê como somos, que nossas necessidades são validadas”, afirma Sophia.

Da mesma forma, Thaísa Gondim reforça o significado da iniciativa. “Considero uma conquista muito importante para nossa comunidade. É uma necessidade que muitas de nós sentimos para adequar características ao gênero com o qual nos identificamos”, relata.

Voz como parte da identidade

Para Sophia, o processo de preparação da cirurgia reforçou o quanto a voz está ligada à construção identitária. Durante as sessões de fonoterapia, ela passou a compreender melhor os impactos da comunicação em sua qualidade de vida.

A voz é uma identidade pessoal de todos. Então, se você me pergunta se isso pode impactar na minha vida, eu digo que sim, muito. Minha voz é muito valiosa para mim, é parte de quem eu sou”, ressalta.

No caso de Thaísa, que trabalha diretamente com atendimento ao público, a expectativa é que a mudança vocal contribua para uma comunicação mais confortável e segura em diferentes situações do cotidiano.

Thaísa Gondim se prepara para procedimento, que será realizado no início de julho

“Esse procedimento vai trazer mais confiança para me comunicar,  tanto no trabalho quanto nas conversas por telefone. Vou me sentir mais segura perante o mundo”.

As duas pacientes seguem em preparação para o procedimento e continuarão acompanhadas pela equipe multiprofissional após a cirurgia. “Estou feliz por participar desta oportunidade de mudança vocal. Ainda teremos a etapa cirúrgica e mais sessões de fonoterapia. É um processo construído passo a passo”, destaca Sophia.

Cuidado multiprofissional

A fonoaudióloga Denire Aragão, que está acompanhando as pacientes, explica que a feminização vocal vai além da mudança do tom da voz e envolve aspectos relacionados à comunicação e ao comportamento vocal.

“Existe um mito de que a cirurgia resolve tudo sozinha. Ela aumenta a frequência da voz. Aspectos como ressonância, entonação e dinâmica da fala dependem do acompanhamento fonoaudiológico antes e depois da cirurgia”, explica.

A fonoaudióloga Denire Aragão acompanha pacientes no processo de feminização vocal

Segundo a especialista, os melhores resultados acontecem quando diferentes áreas atuam de forma conjunta, como ocorre na unidade. “O processo de afirmação vocal mexe profundamente com as esferas biológica, psicológica e social da paciente. Quando fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas, endocrinologistas e psicólogos trabalham juntos, o cuidado deixa de ser fragmentado e passa a ser seguro e integrado”, acrescenta.

Avanço na inclusão e garantia de direitos

Conhecida como “glotoplastia de Wendler”, a cirurgia é realizada na rede pública desde 2024 e permite que mulheres trans tenham uma voz mais feminina, condizente com a identidade de gênero com que se identificam. A coordenadora médica do Serviço de Otorrinolaringologia do Helv, Débora Lima, explica que o processo cirúrgico é feito sem a necessidade de cortes externos. “Com o auxílio de instrumentos especiais, como o microscópio, o comprimento da prega vocal é reduzido. São dados dois pontos para haver maior tensão e diminuição do comprimento e da massa dessa corda vocal”, afirma a médica.

A médica destaca que a promoção da cirurgia pelo SUS representa um avanço significativo na promoção da equidade e do cuidado integral à população trans.

Procedimento contribui para afirmação de gênero e autoestima de mulheres trans

Ela explica que a voz é um dos principais elementos de identificação social e, muitas vezes, é o aspecto que mais expõe pessoas trans a situações de discriminação e sofrimento emocional. “Disponibilizar esse procedimento gratuitamente amplia o acesso a uma tecnologia de saúde, que até então era restrita a poucos centros especializados”, afirma.

A profissional ressalta que a adequação vocal impacta diretamente a saúde e o bem-estar das pacientes, favorecendo a inserção social, as relações interpessoais, o acesso ao mercado de trabalho e o exercício pleno da cidadania.

Para Débora Lima, consolidar a cirurgia de feminização da voz como parte da assistência especializada da rede pública estadual resulta em uma atenção cada vez mais inclusiva. 

“Percebemos uma transformação na forma como essas pessoas ocupam os espaços sociais. A voz passa a ser um instrumento de expressão autêntica, impactando positivamente sua saúde e qualidade de vida”, conclui.

Acesso

O acesso às cirurgias de feminização da voz é realizado via Central de Regulação do Estado. A busca pelo procedimento parte principalmente de pessoas em processo de transição de gênero, como as atendidas pelo Serviço Ambulatorial Transdisciplinar para Pessoas Transgênero (Sertrans). Para a cirurgia, as pacientes precisam fazer uso de hormonioterapia há pelo menos seis meses e ter acompanhamento psicológico há dois anos.

A terapia hormonal é utilizada para iniciar o processo de feminização de mulheres transgênero. O objetivo de serviços como esse, oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é promover mudanças corporais que fazem com que a aparência física da pessoa corresponda à sua identidade de gênero.

Mês do Orgulho LGBTI+

O Mês do Orgulho é celebrado em junho para reafirmar a busca por direitos, respeito e visibilidade da população LGBTI+. A data homenageia a Revolta de Stonewall, marco histórico de 1969 que impulsionou o movimento civil moderno em todo o mundo. No Brasil, a mobilização anual reforça o compromisso das instituições com a dignidade humana e com a proteção contra todas as formas de preconceito.