Mestres da Cultura participaram, neste sábado, de roda de conversa com o secretário Fabiano dos Santos Piúba

Foto: Divulgação/Secult/Felipe Abud
Reunidos em Limoeiro do Norte para o X Encontro Mestres do Mundo, promovido pela Secult, os mestres da cultura do Ceará participaram na tarde deste sábado de uma roda de conversa com o secretário da Cultura do Estado, Fabiano dos Santos Piúba. Uma oportunidade para trocar ideias sobre o programa Mestres da Cultura e o Encontro Mestres do Mundo, além da apresentação de sugestões, recomendações, críticas e impressões dos mestres sobre suas atividades nos municípios, o grande encontro em Limoeiro do Norte, os desafios diários de quem faz da arte e cultura modo de garantir a sobrevivência e, ao mesmo tempo, reinventar a vida.
A roda de conversa aconteceu na pousada onde os mestres estão hospedados, aumentando o tom de proximidade e espontaneidade do diálogo sobre temas como o novo título de Notório Saber em Cultura Popular, outorgado pela Universidade Estadual do Ceará e recebido pelos mestres em cerimônia na última sexta-feira, em Limoeiro; a transmissão dos saberes e fazeres dos mestres, em benefício de gerações mais jovens; a busca de mais reconhecimento para os mestres em seus municípios, pelo Poder Público e pela população em geral.
Outra sugestão feita pelos mestres – e acolhida pelo secretário Fabiano dos Santos – foi a elaboração de um documento a ser utilizado por eles no dia a dia, comprovando a condição de mestre da cultura. Uma espécie de “identidade cultural”, complementar ao certificado emitido pelo Governo do Estado, de modo a facilitar a apresentação dos mestres em atividades do cotidiano.
O cuidado com os espaços dos mestres no dia a a dia – suas casas e oficinas, seus ateliês e terreiros, entre outros, também foi tema da conversa, bem como a ampliação de possibilidades para o “projeto de vida” de cada mestre, como bem definiu o mestre xilógrafo Stênio Diniz, de Juazeiro do Norte, em uma fala de muitas contribuições para o aperfeiçoamento da política de patrimônio, como a realização de mais oficinas pelos mestres, durante e após o Encontro Mestres do Mundo, além de mais intercâmbio com artistas de outros estados.
A voz dos mestres
Mestre Aldenir, do reisado, do Crato, falou de seu reisado-mirim e da forma como vem beneficiando crianças e jovens, destacando o desejo de ampliar esse atendimento, com mais atividades para o público infantil. Dona Mariinha, do Trairi, ressaltou a possibilidade de ampliar a geração de emprego e recursos a partir das pessoas que se dedicam à renda e à costura no município.
Mestre Cirilo, do maneiro pau, do Cariri, também falou de sua ação com crianças e jovens, enquanto Dona Dina, vaqueira e aboiadora, de Canindé, contou das crianças que visitam sua casa, que “é tipo um museuzim”, com apoio da Associação dos Vaqueiros.
Cantador, violeiro e cordelista, Lucas Evangelista falou da importância de o novo Título de Notório Saber, conferido aos mestres pela Uece, ser amplamente reconhecido pelas Prefeituras e pelas escolas de todo o Ceará, “mostrando quem são os mestres e que sabem fazer as coisas”. Mestre Totonho, luthier de rabecas, também ressaltou trabalhar com crianças e jovens, inclusive formando uma orquestra que está pronta para realizar apresentações em eventos culturais, com música de câmara.
Cordelista e tipógrafo, o poeta Luciano Carneiro, que foi o orador dos mestres na solenidade de diplomação pela Uece, também falou do repasse de saberes, colocando-se à disposição para compartilhar a magia e a métrica dos versos com novos interessados. Mestre Pedro, de Guaramiranga, do trançado de cipó, concordou: “Queria pedir que a gente continue que nem eu, que tô fazendo 90 anos agora em janeiro, mas ainda tô ensinando. Tô sempre querendo ensinar”.
Identidade dos mestres e venda dos produtos
Mestre Geraldo, ferreiro, de Juazeiro do Norte, sugeriu a “carteira de identidade dos mestres”, proposta prontamente acolhida pelo secretário Fabiano dos Santos Piúba. Já Mestre Mariinha da Ló, do Pastoril, de Paracuru, além de também destacar seu trabalho com crianças e jovens, sugeriu mais espaços nos municípios de cada mestre para venda dos produtos dos artesãos oficialmente reconhecidos pelo Governo do Estado. Mestre Zacarias, o Mestre Doca, de Milagres, do Congo de Nossa Senhora, também ressaltou a expectativa por mais apoio do Poder Público municipal.
A Cacique Pequena, mestre das tradições indígenas, do povo Jenipapo-Kanindé e de Aquiraz, destacou que dispõe de um amplo espaço para repassar seus saberes e fazeres aos mais jovens e sugeriu a disponibilização de material para esse trabalho e também gostou da proposta da “identidade dos mestres”.
Novas ações para os mestres
O secretário Fabiano dos Santos Piúba respondeu um a um os questionamentos feitos pelos mestres, destacando novas ações da Secult para a política de patrimônio cultural. Um novo livro de registro dos mestres e uma nova exposição sobre eles estão sendo produzidos e uma ação específica sobre os espaços dos mestres está sendo preparada pela Secult, “partindo de uma experiência muito exitosa, muito bacana, muito massa, como a gente diz em Fortaleza, que é do mestre Espedito Seleiro, com o Rosemberg Cariry, que fez o museu, ao lado do ateliê do mestre, da oficina, com a história dele, do pai, do avô, com quem ele aprendeu”.
“Outra questão são os produtos dos mestres. O Stênio usou uma palavra muito importante, que é o projeto de vida dos mestres, em que podemos dialogar inclusive com os espaços deles. A Secretaria da Cultura tem os seus editais, o Junino, o Natal de Luz, Carnaval, Paixão, o Incentivo às Artes. Esses editais, vocês podem estar participando também, como pessoa física ou instituição, e vamos buscar ajudar vocês, ou seus filhos ou outros parentes, na elaboração dos projetos”, lembrou Fabiano.
O secretário também destacou a importância do Título de Notório Saber, recebido pelos mestres. “Guardem esse diploma com muito carinho, com muita atenção, com muito cuidado. Esse é um documento que vale muito”, frisou.
“O diploma de graduação de vocês é a história de vida de cada um, o que vocês aprenderam com a natureza, com o mundo, com a vida. Essa é a primeira graduação. O outro diploma é o da Secretaria da Cultura, que vocês recebem quando são intitulados mestres. Esse que vocês receberam ontem, que foi uma das coisas mais lindas, é um título de doutor. Se qualquer universidade quiser convidar vocês, além da graduação da vida, a Universidade Estadual do Ceará deu a vocês um título que faz com que vocês possam ser contratados pra uma oficina, uma aula”.
Escolas com os Mestres
Fabiano dos Santos também apontou que em 2017 terá início o projeto Escola com os Mestres, parte do Escolas da Cultura, da Secult, começando pela realização de ciclos de atividades com os mestres em escolas públicas, na Uece e na Urca. Os mestres também passarão a estar presentes regularmente nos equipamentos culturais da Secult, em Fortaleza, como o TJA e o Cineteatro São Luiz, e nos novos equipamentos a serem inaugurados em breve no Interior: o Memorial Cego Aderaldo, em Quixadá, e a Vila da Música, no Crato, em parceria com a Solibel.
O secretário também convidou os mestres a realizar atividades na programação da Bienal Internacional do Livro do Ceará, marcada para abril de 2017, e enfatizou que, pelo Plano Estadual de Cultura aprovado neste ano, o número de mestres da cultura oficialmente reconhecidos pelo Governo do Estado passará de 60 para 80. “Em 2017 serão 10 novos mestres”, disse, sob aplausos.
“Estamos trabalhando para ampliar a política para os mestres, principalmente quanto à transmissão dos saberes. Como disse Mestre Espedito, há muita coisa escondida dentro dos mestres que precisa ser revelada”, complementou Fabiano, agradecendo a todos pela presença ao Encontro e pela participação na roda de conversa.