Bienal Fora da Bienal teve início neste sábado, 15/4, com abertura da exposição “Biwá”, de Claudia Quilombola, no Sobrado José Lourenço

A programação da Bienal Fora da Bienal, uma das mais chamativas da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, foi aberta neste sábado, 15/4, às 10h, no Museu de Arte Sobrado José Lourenço, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Os participantes conferira a abertura da exposição “Biwá”, da artista Claudia Oliveira Quilombola.
“Esta é uma exposição que alia o respeito, a diversidade e a educação que são fundamentais para a realização das ações do Sobrado”, destacou Natália Maranhão, diretora do Museu de Arte Sobrado Dr José Lourenço, durante a abertura da exposição.
“‘Biwá’ vem do Yorubá e significa ‘Nasceu pra nós'”, explica Natália. Foi com este mote que a exposição chegou ao Sobrado, para contar a história das comunidades quilombolas de Caucaia, a partir das experiências, lembranças e vivências de famílias originárias da região, que atualmente abriga dez quilombos.
Neste sábado o Sobrado José Lourenço contou com a presença de inúmeros representantes de quatro desses quilombos, como da Serra do Juá, de Porteiras, Boqueiraozinho e Serra da Rajada. E, além da artista que criou a exposição, estiveram presentes a pesquisadora Sandra Petit, o secretário de Cultura de Caucaia, Paulo Guerra, e muitos visitantes.
Memória, difusão e afirmação
Na abertura da exposição foi possível conhecer um pouco mais sobre as manifestações culturais, religiosas e das histórias de vida de uma população que, por muitos anos, não recebeu o devido reconhecimento pelos governos. A exposição contribui para preservar e difundira cultura quilombola cearense e transmiti-la para além dos inúmeros descendentes vivos, dos primeiros moradores daquela região.
Na ocasião, a curadora do Sobrado e da exposição “Biwá”, Carolina Ruoso, destacou a importância desta ação queapresenta uma peça artística de criação colaborativa em arte contemporânea que mistura os parangolés de Hélio Oiticica com a tradição dos panos de pente da Guiné Bissau, e tem como função colocar nos museus algumas ações que, praticamente, não são expostas neles.
O que muitos museus não contam
“Com ‘Biwá’ estamos trazendo as memórias que muitos museus não estão contando. Sempre que se fala da cultura afro é remetendo ao passado e, normalmente, a arte africana está ligada ao primitivo. No entanto, aqui no Sobrado o destaque é para a arte contemporânea dos quilombos, reafirmando que ela pode sim estar nos museus”, ressalta Carolina Ruoso.
Crenças, religiosidade, mulheres de luta
“Toda história tem uma emoção, pois, mesmo nós não estando presentes na história, podemos contribuir com elas. Ao recontá-las estamos realizando ações de pertencimento, de aceitação, e de luta”.
Foi com essa frase que a quilombola Suelina Souza da Silva apresentou o seu pano de pente, peça usada na exposição para contar a história de cada comunidade e de cada família. “Meu pano de pente fala de uma mulher que rema contra a maré, Piracema. Nós somos estas mulheres, que mesmo indo contra a maré conquistamos muitas vitórias nos nossos dias”, afirmou Suelina.
Composta por mais de seis panos de pente e de um painel bastante extenso, que ocupa uma parede inteira, na qual estão expostos autoretratos de afropertencimento, a Exposição Biwá, fala também da força da ancestralidade, memória compartilhada e marcante na comunidade da Serra Rajada. Quem der uma passada por lá, poderá sentir a presença do pertencimento afro na fala e no pano de pente de Jucilene Ferreira Furtado.
“Aqui eu destaco muito da ancestralidade, das mulheres, das parteiras, rezadeiras, educadoras, a exemplo de Mãe Ilda, que trabalha a no cultivo, no preparo das comidas, no trabalho do roçado, no uso do pilão e também da presença de um homem nesta ação, do “Tio Pretinho”, apresentou Jucilene.
Histórias de luta
O último pano de pente exposto veio com a fala da quilombola Maria Oliveira, que conta a história dos “Oliveira e Silva”, originais do Quilombo da Serra do Juá e de Boqueirãozinho, caracterizados pela religiosidade, a feitura do café, a utilização de cavalos e jumentos não apenas no transporte, mas nas atividades lúdicas etc.
Com lembranças e tradições das famílias, Maria falou do costume de utilizar o fogão a lenha, de ir para a roça, de fazer carvão. Para isso contou com exemplos de mulheres lutadoras como Dona Maria do Carmo, que fazia café, era cuidadora, pisava pilão e ainda era a rezadeira da família.
A manhã da abertura da exposição contou ainda com falas da artista Claudia Quilombola, da representante da comunidade de porteiras, Luisa Leite da Costa, que destacou a importância dos idosos, agricultores, rezadeiras, contadores de histórias, e reproduziu lendas da Serra.
“Aqui no meu pano de pente trago símbolos como a cabaça, os animais de estimação, a lamparina, o roçado, o artesanato de fuxico, os coqueiros, a encenação da via sacra, o dia do padroeiro, caminhada de são José, o Dia de São Francisco, tão característicos da nossa região”, ressaltou Luisa.
“O pertencimento não chega construído, é algo que precisa ser fortalecido sempre, e repassado. Por isso, este reconhecimento para as comunidades quilombolas de Caucaia é essencial”, declarou a artista Claudia, sobre a realização da exposição no Museu de Arte Sobrado. De acordo com Claudia, de 2009 para 2010, estas comunidades retratadas na exposição foram certificadas como quilombolas pela Fundação Palmares, e as lutas por novos reconhecimentos nunca pararam. Com isso, ainda neste ano novas comunidades serão certificadas.
A história dos quilombos em autoretratos
Além dos panos de pente, a exposição Biwá traz autoretratos criados a partir da Pretagogia, em um curso realizado pela Secretaria da Educação e pelo IFCE, que possibilitou a formação de inúmeros professores de escolas quilombolas do Ceará. “Com estas realizações hoje temos um reconhecimento muito maior das comunidades. Aqui podemos conferir uma força muito grande entre imagem e a oralidade”, destacou Claudia Quilombola.
Visite a exposição
O Museu de Arte Sobrado Dr José Lourenço funciona de terça a sexta, das 9h às 17h e aos sábados, das 9h às 14h. Visitação gratuita. Para a montagem do espaço, a exposição contou com a colaboração dos alunos de design da Universidade Federal do Ceará.