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Internos do sistema prisional cearense confeccionam coleção inédita assinada por estilistas no Ceará Moda Contemporânea 2025

Internos do sistema prisional cearense confeccionam coleção inédita assinada por estilistas no Ceará Moda Contemporânea 2025

O Ceará Moda Contemporânea (CMC) 2025 marcou um momento histórico ao levar para a passarela uma coleção inédita assinada por estilistas renomados e confeccionada por internos do sistema prisional cearense. Pela primeira vez, pessoas privadas de liberdade participaram ativamente da produção de uma coleção completa, transformando talento e dedicação em peças de alta qualidade.

A iniciativa é fruto da parceria entre o Sindicato das Indústrias de Confecção de Roupas e Vestuário do Ceará (SINDROUPAS) e a Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização (SAP). O projeto envolveu ex-ganhadores do CMC, responsáveis pela criação dos croquis e modelagens, enquanto os internos executaram a costura, os bordados e os acabamentos de cada peça. Para tornar o momento ainda mais especial, os familiares dos internos que participaram da produção foram convidados para prestigiar de perto o trabalho realizado, fortalecendo vínculos e valorizando o esforço.

O objetivo é valorizar o trabalho desenvolvido dentro das unidades prisionais e ampliar a visibilidade dos projetos de formação profissional e inserção produtiva promovidos pela SAP. O resultado comprova que aprendizado técnico e dedicação podem gerar produtos de grande relevância cultural, evidenciando o papel da moda como instrumento de transformação social.

Sob o tema “Reencontros”, a coleção apresentou seis looks exclusivos, desenvolvidos por seis estilistas vencedores de edições anteriores do CMC. As peças combinam crochê, renda Tenerife, macramê e costura industrial, demonstrando o talento artístico e a técnica dos internos.

Os costureiros que participaram da iniciativa são contratados pelas empresas Skybeach, Miss Flor, Farda Nova e UP Jeans, integrantes do Projeto “Cadeias Produtivas”, desenvolvido pela SAP para capacitação profissional e geração de trabalho dentro das unidades prisionais. Já os trabalhos artesanais foram produzidos pelos participantes do Projeto “Arte em Cadeia”, reconhecido por transformar o artesanato em instrumento de ressocialização e geração de renda.

Além do desfile, o evento também contou com um ponto de coleta de livros para o Projeto Livro Aberto, iniciativa que permite a remição de pena por meio da leitura e incentiva o acesso à educação dentro das unidades prisionais.

Mais do que um desfile, o projeto representou um encontro entre passado, presente e futuro da moda cearense, reafirmando o compromisso da SAP com a transformação social e a dignificação do trabalho prisional.

A coordenadora de Inclusão Social do Preso e do Egresso da SAP, Cristiane Gadelha, destacou o impacto humano e social do projeto. “A coleção ‘Reencontros’ representa muito mais do que um desfile: é a prova de que a educação, o trabalho e a confiança podem transformar trajetórias. Ver os internos produzindo peças de alto nível, sendo valorizados por estilistas renomados e tendo seus familiares presentes nesse momento tão simbólico nos mostra que estamos no caminho certo. A moda abriu uma porta de esperança, de profissionalização e de dignidade. Este é o propósito da SAP: oferecer condições reais para que essas pessoas possam recomeçar, reconstruir vínculos e visualizar novas possibilidades de futuro. Fico profundamente emocionada e orgulhosa por ver esse reencontro com a vida acontecer na passarela”, concluiu.

Para a assessora executiva do SINDROUPAS, Thais Cunha, o desfile representou muito mais que uma apresentação de moda. “Visitar o sistema prisional e conhecer de perto os internos que produziram cada peça foi uma experiência profundamente transformadora. Ver hoje esse trabalho se concretizando, com familiares presentes e uma coleção impecável na passarela, reafirma que a moda pode ser um caminho de recomeço. Não se trata apenas de roupas, mas de essência, propósito e humanidade. Nós, do SINDROUPAS, queremos a SAP como parceira oficial dos próximos CMCs, porque este projeto mostrou que todos merecem a chance de se reencontrar com a vida e seguir adiante. O CMC 2025 já é um sucesso, e este é apenas o começo”, afirma.

O estilista Ivanildo Nunes, vencedor do CMC em 2009 e participante da coleção “Reencontros”, celebrou o retorno ao evento e a parceria com o sistema prisional. “Estou muito feliz em voltar a esta casa, onde ganhei o primeiro lugar em 2009 e iniciei minha trajetória como designer. Hoje retorno com uma nova roupagem, trazendo para a passarela um look inteiramente produzido dentro do sistema prisional. Esse projeto busca reintegrar, ressocializar e preparar os internos para o mercado de trabalho. Fico imensamente grato pelo apoio da Cristiane Gadelha, coordenadora do projeto, e da Socorro Silveira, que desenvolve um trabalho incrível de reaproveitamento de matéria-prima. Ver a moda se unir a uma possibilidade real de reabilitação é muito significativo. Meu agradecimento ao CMC e ao sistema prisional por construírem essa ponte tão transformadora”, ressalta.

A irmã de um dos internos que participaram da confecção das peças, Ana Paula de Souza, destacou o orgulho em acompanhar a evolução do irmão. “Vim prestigiar meu irmão e ver de perto a peça linda que ele produziu. Fiquei muito satisfeita e emocionada ao perceber o quanto ele está evoluindo, aprendendo e querendo mudar de vida. Ele sempre diz que quer levar esse conhecimento para o futuro, trabalhar com isso e, quem sabe, até abrir um negócio em família. Isso deixa todos nós — principalmente nossa mãe — muito orgulhosos. Estamos na expectativa por esse novo começo e felizes em ver que ele encontrou um caminho para recomeçar”, disse.

O interno Francisco Leonardo de Sousa, que trabalhou na produção dos looks pela empresa Miss Flor, falou sobre a importância da experiência. “Trabalhar aqui é algo muito gratificante. Desde o início, aprendemos bastante, lidando com materiais que antes pareciam difíceis, sempre ao lado de colegas que também estão se ressocializando e buscando uma nova chance. Sou muito grato à SAP e ao nosso governador, porque as mudanças dentro dos presídios fizeram uma enorme diferença. Essa fábrica foi um sonho, e queremos levar essa oportunidade para fora, conquistar uma nova vida e uma mudança verdadeira. Aqui, estamos nos preparando para sair com outros olhares — saber dialogar, buscar trabalho e seguir em frente com dignidade”, afirma.

Sobre o “Arte em Cadeia”

No Ceará, o artesanato é uma das principais atividades oferecidas aos internos, que além de expressar seu lado artístico, desenvolvem novas competências profissionais e elevam a autoestima. A prática ainda contribui para a ocupação produtiva do tempo, a perspectiva de um futuro melhor e a remição da pena.

A Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização, por meio da Coordenadoria de Inclusão Social do Preso e do Egresso (Coispe), fomenta essas ações com o projeto “Arte em Cadeia”, promovendo cultura, qualificação e reinserção social para centenas de internos.

O projeto Arte em Cadeia envolve cerca de 660 participantes distribuídos em seis unidades prisionais no Ceará, que produzem mensalmente aproximadamente 2 mil peças artesanais, totalizando mais de 20 mil itens por ano. Essas peças são confeccionadas em 17 oficinas e comercializadas em diversos pontos de venda em Fortaleza, como Emcetur, RioMar Kennedy, Shopping Benfica, Feirinha da Beira Mar, Seduc, FIEC – Fórum Autran Nunes e Parque Adahil Barreto. Além disso, o artesanato produzido dentro do sistema prisional no Ceará tem um impactado mais de 2.600 internos e internas de 16 unidades prisionais. Além da capacitação profissional oferecida, que inclui o desenvolvimento de habilidades técnicas e artísticas, os internos têm direito à remição de pena, na qual a cada três dias trabalhados um dia é reduzido da pena total.

As vendas geram recursos que são depositados no Fundo Rotativo do Sistema Penitenciário Cearense (FUROPEN), criado pela Lei Estadual nº 17.610, de 2021, e que financia a manutenção das unidades prisionais e ações de reinserção social. Dessa forma, o projeto não só promove a ocupação produtiva do tempo e a qualificação profissional dos participantes, mas também contribui para a sustentabilidade financeira do sistema prisional e a construção de oportunidades para a ressocialização.

Cadeias Produtivas

Os internos participantes do projeto cumprem uma jornada de 40 horas semanais e têm direito à remição de pena — a cada três dias de trabalho, um dia é reduzido do total da pena. O salário é distribuído entre a família do interno, que recebe 50%, um percentual de 25% é depositado judicialmente para uso após a liberdade, e os 25% restantes são revertidos para o sistema prisional, contribuindo com melhorias internas.

Empresários e industriais que desejam integrar o projeto Cadeias Produtivas podem entrar em contato com a Coordenadoria de Inclusão Social do Preso e do Egresso (Coispe) pelos seguintes canais: telefone (85) 3101-7714 ou e-mail cispe@sap.ce.gov.br.