“Sou +” diversidade: histórias que evidenciam o orgulho de ser e transformam a saúde pública cearense

No Mês do Orgulho, as cores da bandeira LGBTI+ ganham um significado que vai além do simbolismo: elas representam trajetórias de resistência, competência e, acima de tudo, humanização nos corredores da saúde pública do Ceará. Por meio da série de reportagens “Sou +”, a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) evidencia que a excelência do cuidado nasce do respeito à pluralidade humana. Nos mais diversos territórios, profissionais e pacientes reafirmam que o Sistema Único de Saúde (SUS) é, essencialmente, um lugar para todas as pessoas.
Na última reportagem da série, vamos conhecer histórias de quem faz parte da Rede Sesa e tem orgulho de quem é, tanto pela letra da sigla que a define afetivamente como pelas especificidades do percurso de vida de cada um e cada uma.
Missão de cuidar
Quando o relógio sinaliza o fim do expediente, o enfermeiro do trabalho que atua no Hospital Regional de Itapipoca (HRI), Tiago Oliveira, não encerra a sua missão de cuidar. Longe dos corredores hospitalares e das exigências de biossegurança do jaleco, a sua dedicação ganha novas formas. É na zona rural que Tiago recarrega as suas energias, atuando como vice-presidente de uma associação comunitária que ampara e estrutura cerca de 300 famílias da agricultura familiar.

Essa liderança comunitária, que pulsa desde os tempos de faculdade, quando presidiu o centro acadêmico e coordenou ligas de enfermagem, revela a essência de quem ele é: alguém que enxerga o coletivo. Para Tiago, o verdadeiro significado de celebrar o Mês do Orgulho LGBTI+ está intimamente ligado a esse direito de ser, de ocupar espaços e de acolher. E, para sustentar essa jornada intensa entre a saúde e o campo, ele conta com um alicerce fundamental.
“A minha família é o meu principal pilar. É para lá que eu volto depois de um dia longo de trabalho. Eles são o meu refúgio, o meu ponto de descanso e de colo, a base sólida que mantém a minha saúde mental e me dá forças para continuar cuidando de outras pessoas”, compartilha o enfermeiro.
A trajetória de uma pessoa LGBTI+ na área da saúde pública traz consigo conquistas que merecem ser evidenciadas, mas também desafios particulares. No entanto, Tiago pontua que o profissionalismo e o respeito mútuo ultrapassam barreiras. “Confesso que ocupar espaços de gestão e coordenação sendo uma ‘pessoa LGBT’ não é uma tarefa fácil. Existem obstáculos, mas eles servem para ser enfrentados e resolvidos. Quando você impõe o autorrespeito e trata o outro com a mesma dignidade, as portas se abrem. Nós podemos chegar exatamente onde quisermos, independentemente da nossa orientação sexual ou identidade de gênero”, afirma de forma convicta.

“Nós podemos chegar exatamente onde quisermos”, afirma Tiago
Na rotina da Enfermagem do Trabalho, a vivência de Tiago se traduz em um ambiente mais seguro e acolhedor para os próprios profissionais da unidade. Sob a sua condução, as ações do SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho), local onde atua, ganham um contorno dinâmico e participativo.
“No HRI não fazemos distinção de raça, cor, orientação sexual ou identidade de gênero. Todos são muito bem recebidos. Quando circulamos pelas clínicas e enfermarias, testemunhamos o zelo igualitário que médicos, enfermeiros e técnicos dedicam a cada paciente. O nosso hospital é um espaço amigo da diversidade”, pontua Tiago, revelando ainda que a unidade planeja novas atividades oficiais voltadas para a inclusão.
Lina Mara: afeto e determinação a serviço do HGF

A assistente social do HGF é benquista pelos trabalhadores do hospital
Clara Lina Mara Castro Silva, de 31 anos, é assistente social do Hospital Geral de Fortaleza (HGF) há pouco menos de seis meses. Porém, a simpatia que exala enquanto caminha pelos corredores é de quem já conhece cada canto do hospital há anos. Das pessoas mais simples às maiores autoridades, não há quem lhe negue um sorriso.
“Uma excelente profissional e super comunicativa. Tanto com os pacientes e acompanhantes quanto com os trabalhadores. Gosta muito de ajudar e de servir”, resume o vigilante Leandro Oliveira, que trabalha junto a ela.
Natural da zona rural de Itatira, cidade localizada a cerca de 190 km de Fortaleza, ela gosta de retratar a rotina nas redes sociais. Em especial, suas origens ao lado dos pais de criação, a quem Lina mais ama na vida. “Sempre que tenho uma folga, parto para o interior para ficar com eles”, revela.
Andar de moto e conversar com os pais estão entre as atividades que a assistente social mais realiza quando sai da capital cearense. Esse afeto revela, inclusive, que a resistência da mãe em deixar de usar o seu nome morto — a profissional é uma mulher trans, e “nome morto” é o termo usado para se referir à identidade pré-transição — não apaga o amor existente entre as duas. “Não é fácil para eles. Minha mãe vai fazer 80 anos e meu pai tem 80 anos. Eles vêm de outra cultura, de outra realidade totalmente diferente. Mas, como eles me acolheram e cuidam tão bem de mim, isso não é um problema para mim”, diz.
Inclusive, foi dona Iracema, a mãe, quem ajudou na escolha de sua nova identidade. “‘Clara’ surgiu da mamãe, porque eu nasci no dia de Santa Clara. A mamãe é muito católica, muito devota; então, se era para ser menina, era para ser Clara”, explica.

Lina e a mãe, dona Iracema, nos momentos de descanso da assistente social
A empatia com os pais se justifica: afinal, o caminho também não foi fácil para Lina. Como ela mesma conta, a sua essência sempre existiu, mas foi represada por uma série de preconceitos e barreiras sociais. “Eu já tinha muitos traços femininos, sempre fui muito feminina. Eu já usava roupa feminina, sempre me maquiei e gostava de andar muito bonita. Quem me conhece há mais tempo já sabe. Sempre brinquei de boneca. Faltava só a coragem de enfrentar todo esse processo e colocar a Lina para fora”, relata.
O processo de transição de Lina iniciou quando ela tinha cerca de 28 anos. E não foi apenas uma nova realidade que surgiu, mas uma verdadeira mudança de vida. “Sempre tive tudo na mão, então, quando esse processo iniciou, eu realmente fui com tudo. Fui atrás sozinha de muitas coisas em que só a minha família mesmo ajudou. Mas esse meu jeito de tratar todo mundo assim, feliz, isso já vem do passado”, disse ela.
Um desses passos decisivos foi a graduação em Serviço Social. Anos depois, surgiu a oportunidade de trabalhar em Fortaleza e deixar o interior – desafio que ela abraçou de prontidão. “Abdiquei do meu conforto para estar aqui hoje. Queria me dedicar à profissão, ao fazer profissional. E trabalhar no HGF foi muito gratificante para a minha família. Eles estão muito felizes, muito orgulhosos de eu estar aqui, e eu também estou”, conta, realizada.
Apesar de já se sentir vitoriosa, Lina tem planos ambiciosos. A mesma coragem que a fez sair do conforto da casa dos pais para conquistar Fortaleza agora a impulsiona a almejar o mundo. “Acho que o Brasil e o mundo precisam conhecer mais a Lina Mara. (risos)”, pontua.
O fluir da vida fora do armário: a coragem de viver sem rótulos
Quando questionada sobre a letra da sigla que a representa, Mariana Clemente, de 32 anos, auxiliar técnico-administrativa da Secretaria Executiva de Planejamento e Gestão Interna (Sepgi) da Sesa, tem um pouco de dificuldade em definir. “Eu não sei. Eu sou uma mulher, mas acho que o meu gênero é fluido porque às vezes eu estou bem feminina, às vezes eu estou mais masculina. Eu não me identifico com um gênero específico”, diz. Mas, tentando chegar a uma resposta mais simples, ela afirma: “eu sou lésbica, eu gosto de me relacionar com mulher”.

Mariana celebra a liberdade das pessoas viverem a liberdade de serem quem são
O impasse na definição é revelador e traz a reflexão de que as possibilidades humanas de ser vão além das letras de uma sigla. A diversidade é mais.
Para Mariana, celebrar o Mês do Orgulho LGBTI+ é importante para que sejam vistas as conquistas alcançadas ao longo dos anos e para que as pessoas vivam a liberdade de serem quem são. “Quando eu me descobri, era um tempo difícil, digamos assim. Há uns 20 anos. Eu nem entendi o que era de fato. Hoje a gente pode falar sobre isso livremente, abertamente, sem ter medo, sem ter vergonha, é muito bom”, conta.
A percepção de sua sexualidade aconteceu no mesmo período em que ela descobriu um outro amor: a música. A fluidez dos sons tirados do violão conversa com a alma e o estilo de vida de Mariana.
“Eu sempre gostei de música. No tempo da novela Malhação, eu saía do colégio e corria para assistir. E eu nunca me apaixonava pelos personagens masculinos. Era sempre pela mulher. Eu achava estranho aquilo. E eu gostava das músicas e tal. Tocava sempre Charlie Brown Jr. Adorava rock. E isso me fez querer tocar. E, na época, eu associava uma coisa à outra”, relembra.
Em casa, Mariana sempre contou com acolhimento. Quando a família soube de sua orientação sexual, a irmã dela revelou que também era lésbica. “Ela (a irmã) falou: olha, não se preocupa. Um dia vai aparecer alguém que vai te amar do jeito que você é, e está tudo bem. Eu também sou como você. Minha família me abraçou e nunca tive problemas com isso em casa”, conta.

A música e a maternidade transformaram Mariana
Há cinco anos, a vida de Mariana ganhou cores novas. A chegada da filha, Ohana, mudou tudo. Fruto de um relacionamento breve, a menina mostrou uma nova forma de amar para ela e para a família. Hoje, Mariana é mãe solo e conta com a irmã como rede de apoio. “Moramos eu, minha filha e minha irmã, que é madrinha e segunda mãe da Ohana”, explica.
“A Ohana foi um presente inesperado. Eu não tinha planos e também não era um sonho ser mãe, mas o destino trabalha de formas misteriosas. Eu fiquei com um homem uma vez e ela foi o brinde. Mas hoje é o amor da minha vida, acho que nada seria igual se eu não a tivesse”, diz.
No trabalho, a auxiliar técnica administrativa também se sente acolhida e respeitada. “O ambiente em que me encontro é muito acolhedor. Sem preconceitos, sem nenhum problema, sabe? Existe o respeito, existe aquela colaboração dos outros. Ninguém lhe olha torto. É muito bom se sentir abraçado no seu ambiente de trabalho”, relata.
O sentimento de acolhimento a fez expandir a mente para novos horizontes profissionais. “Eu acho que essa versão minha nasceu aqui na Sesa. Eu aprendi muito, sabe? É como se tivesse despertado algo em mim que ainda não existia. O meu desejo é desenvolver soluções para os problemas na área de tecnologia”, revela.
Apesar da aceitação encontrada na família e entre colegas de trabalho, Mariana já se sentiu desrespeitada na rua, mas ela não recua nem se intimida. “Eu nunca tive papas na língua, então eu sempre rebato e ameaço logo chamar a polícia. Eu acho que a gente não deve se calar de forma alguma. Porque a gente já conquistou o nosso lugar e, agora, a gente não pode voltar para o armário jamais”, declara.
Maqueiro do HRVJ é pai solo e realizou sonho aos 31 anos por meio de uma FIV

Isailson está há dois anos no cargo de maqueiro
Antonio Isailson Maia, de 33 anos, é maqueiro no Hospital Regional Vale do Jaguaribe (HRVJ), unidade da Sesa em Limoeiro do Norte, onde atua no transporte de pacientes que precisam se locomover entre os setores assistenciais. Para além de exercer uma das atividades primordiais em uma unidade de saúde, o profissional sempre nutriu o sonho de ser pai. Há dois anos, ele contou com a ajuda da ciência para tornar esse sonho realidade.
A sua sexualidade, segundo ele, nunca foi um impedimento para a realização desse objetivo. Maia se identifica como um homem gay e foi pai aos 31 anos, por meio de uma Fertilização In Vitro (FIV). Juan Yhorran foi o nome escolhido para o primeiro filho do jovem de Tabuleiro do Norte, que pensa em ter mais uma menina.
O procedimento médico contou com a colaboração de uma das irmãs, que se disponibilizou a ser a barriga solidária. “O fato de eu ser gay nunca interferiu na minha decisão de querer ser pai, porque a sexualidade não constrói amor e não define o que é amor”, explica.
Hoje, com 33 anos, ele conta que, desde pequeno, sempre nutriu o sonho da paternidade. “Minha mãe sempre quis ser avó, mas ela achava que eu nunca iria dar um neto a ela. Mas eu queria ser pai”.

“Ser pai é uma sensação inexplicável“, diz
Ser pai solo, para Isailson, ensina a ter muitas responsabilidades. “Quando você se torna pai, você não tem mais aquele pensamento de que eu vou fazer isso por mim. Tudo que você vai fazer, você vai e pensa: ‘ah, tem meu filho. Meu filho precisa disso. Meu filho precisa daquilo’. E você acaba priorizando sempre o seu filho, então é uma sensação inexplicável”, lembra.
Ele reitera que a sociedade ainda repreende muito o fato de um homem gay decidir ser pai. “A sociedade se preocupa muito com isso; eu não. Meu filho tem dois anos e cinco meses, então ele ainda é uma criança com a qual eu não consigo conversar sobre o assunto, mas eu pretendo falar e explicar sobre orientação. Espero que ele aceite de uma boa forma, assim como eu venho cuidando e educando para que ele sempre siga no caminho do bem”, finaliza.
Enfermeiro Douglas Matos une liderança, cuidado e acolhimento no Hospital de Saúde Mental
Quem circula pelos corredores do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM), talvez não perceba o trabalho que acontece nos bastidores para garantir ambientes seguros, organizados e acolhedores. É nesse cenário que atua Douglas Matos, enfermeiro responsável pela equipe de Higienização Hospitalar da unidade.

O enfermeiro Douglas Matos é responsável pelas ações que ajudam a garantir a qualidade e a segurança dos ambientes hospitalares
Com uma trajetória marcada pelo compromisso com o cuidado, Douglas acredita que a assistência à saúde vai além dos procedimentos clínicos. Para ele, cada detalhe do ambiente hospitalar contribui diretamente para o bem-estar dos pacientes, familiares e trabalhadores. À frente da equipe de Higienização Hospitalar, Douglas desenvolve um serviço fundamental para a segurança e a qualidade da assistência prestada no HSM.
Segundo ele, liderar também é uma forma de cuidar. “A relação com a minha equipe é baseada no apoio, no companheirismo, na escuta e no acolhimento. Busco construir diariamente um ambiente de respeito e diálogo, em que todos tenham voz e se sintam valorizados”, afirma.
Família, respeito e diálogo
No mês do orgulho LGBTQIAPN+, Douglas compartilha uma história marcada pelo apoio familiar e pela construção de relações baseadas no respeito.


Ele acredita que os desafios enfrentados por pessoas LGBTI+ podem ser amenizados quando existe acolhimento dentro de casa. “Ter o apoio da família faz toda a diferença. Quando enfrentamos os desafios da sociedade, saber que temos esse suporte torna tudo mais leve”, frisa.
Criado em uma família cristã, Douglas conta que o diálogo foi essencial para fortalecer os vínculos familiares. “Cada pessoa tem seus pensamentos e crenças, mas, acima de tudo, sempre houve respeito. Foi um processo construído com muita conversa e escuta dos dois lados.” Hoje, ele celebra a convivência harmoniosa entre a família e o relacionamento que mantém há seis anos com o esposo, Carlos. “Ele é uma pessoa muito importante para mim. Me apoia, me acolhe e me incentiva a ser melhor. Isso me dá força para seguir em frente”, comemora.
Afeto e qualidade de vida
Além da convivência com familiares e amigos, Douglas participa de um grupo de acolhimento LGBTI+, formado por amigos e pessoas de diferentes trajetórias que se reúnem para compartilhar vivências, experiências, desafios e conquistas. O espaço promove a troca de apoio e o fortalecimento de vínculos por meio de conversas sobre temas que fazem parte do cotidiano da comunidade, como relações afetivas, preconceitos, conquistas, sonhos e projetos de vida.
“É um espaço onde falamos sobre nossas vivências, nossas lutas, amores e dores. A troca de experiências nos ajuda a compreender diferentes realidades e a perceber que não estamos sozinhos”, destaca.
Para Douglas, esses momentos de escuta e acolhimento têm impacto direto na qualidade de vida. “Conviver com pessoas em que a gente se sente acolhido e amado muda tudo. Isso fortalece a autoestima, aumenta o interesse pela vida e nos incentiva a buscar novas experiências”, reconhece.
Mês do Orgulho LGBTI+
O Mês do Orgulho é celebrado em junho para reafirmar a busca por direitos, respeito e visibilidade da população LGBTI+. A data homenageia a Revolta de Stonewall, marco histórico de 1969 que impulsionou o movimento civil moderno em todo o mundo. No Brasil, a mobilização anual reforça o compromisso das instituições com a dignidade humana e com a proteção contra todas as formas de preconceito.