De outubro a outubro rosa

De outubro a outubro rosa: prevenção e diagnóstico precoce orientam cuidado com a saúde

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De outubro a outubro rosa: prevenção e diagnóstico precoce orientam cuidado com a saúde
Texto: Jessika Sampaio
Fotos: Thiago Andrade e acervo pessoal
Infografia: Júlio Lopes

“A mão fica gelada; às vezes a gente vai pensando no pior. É o medo, né? Mas a saúde da gente não pode depender do medo. O medo nunca me parou e não vai me parar.” É com este depoimento esperançoso que, a cada consulta, a cuidadora de idosos Lidiane Costa, 42 anos, enfrenta a ansiedade de acompanhar as alterações identificadas em suas mamas. Moradora do bairro Vila União, em Fortaleza, ela realiza exames e consultas a cada seis meses desde 2024.

O acompanhamento acontece no Instituto de Prevenção do Câncer (IPC), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), em Fortaleza, que oferece atendimento especializado em mastologia e ginecologia e é referência no estado. Em 2024, o posto de saúde encaminhou Lidiane para atendimento ginecológico no IPC e, durante a consulta, foram identificadas alterações nas mamas. Ela realizou uma mamografia na própria unidade, na qual foram identificadas calcificações, e passou a ser acompanhada por uma especialista, além de realizar consultas e exames a cada seis meses.

Lidiane Costa monitora alterações na mama com exames e consultas a cada 6 meses no Instituto de Prevenção do Câncer

Desde então, ela segue o acompanhamento indicado pela equipe. A experiência de uma amiga em tratamento de câncer de mama e os casos de outros tipos de câncer na família contribuíram para que ela ficasse mais atenta à própria saúde. “Impressiona como, às vezes, a doença avança rápido; não dá para descuidar mesmo”, afirma.

Diretora clínica do Instituto de Prevenção do Câncer (IPC), a mastologista Lina Araujo concorda com Lidiane e percebe o medo como um importante desafio a ser enfrentado, principalmente por mulheres mais idosas

Para a mastologista e diretora clínica do IPC, Lina Araujo, o medo do diagnóstico e dos possíveis tratamentos precisa ser acolhido. “Esse receio pode adiar tanto a procura por atendimento quanto a busca pelo resultado de um exame já realizado. É comum ter medo de cirurgia, de quimioterapia, de cair o cabelo, de retirada da mama; tudo isso mexe muito com a paciente”, explica.

Ter espaço para falar sobre esses receios e esclarecer dúvidas com a equipe de saúde ajuda cada mulher a seguir com o acompanhamento e a incorporar a prevenção à rotina.

Prevenção no dia a dia

Na prática, esse cuidado acerca do câncer de mama começa antes de qualquer alteração visível. A mastologista Lina Araujo explica que a prevenção envolve medidas para reduzir o risco de desenvolver o câncer, enquanto o diagnóstico precoce busca identificar a doença quando ela já está presente, permitindo iniciar o tratamento mais cedo.

Praticar atividade física, manter uma alimentação saudável e evitar bebidas alcoólicas estão entre as medidas de prevenção. “Cerca de 30% dos casos de câncer de mama podem ser evitados com a adoção de hábitos saudáveis”, afirma a médica. A orientação é que esses cuidados sejam contínuos e façam parte de toda a vida.

Outros fatores também estão associados ao maior risco de aparecimento de câncer, como a obesidade após a menopausa, que deve ser considerada no acompanhamento de saúde de cada mulher, com orientação individualizada sobre alimentação e atividade física e, ainda, atenção ao histórico familiar, afinal, o problema também pode ser hereditário. “Todo câncer, inclusive o de mama, é uma combinação de alterações genéticas e fatores ambientais”, afirma a médica. 

A orientação profissional, portanto, deve considerar tanto os hábitos cotidianos quanto o histórico pessoal e familiar. Embora as medidas de prevenção ajudem a reduzir os riscos, elas não eliminam a possibilidade de desenvolver a doença. Por isso, também é importante conhecer o próprio corpo, observar mudanças nas mamas, realizar o autoexame e manter os exames indicados para cada mulher.

Lina completa que: “O autoexame não precisa ser feito de forma rotineira. Quando a paciente se sentir confortável, na hora do banho ou na troca de roupa, ela pode se palpar. Mas não substitui o exame clínico do médico e não substitui a mamografia”.

Ao perceber alguma alteração, a orientação é procurar um serviço de saúde para avaliação, mesmo que os exames anteriores não tenham identificado problemas.

Quando fazer a mamografia?

A mamografia de rastreamento é realizada mesmo quando não há sinais ou sintomas suspeitos. No SUS, a recomendação de rotina é fazer o exame a cada dois anos, dos 50 aos 74 anos. Para mulheres entre 40 e 49 anos, o acesso também é possível, após orientação profissional sobre os benefícios e os riscos e uma decisão compartilhada.

“O programa de rastreamento de rotina continua sendo de 50 a 74 anos, com mamografia a cada dois anos”, esclarece Lina. A ampliação da idade máxima, antes de 69 anos, ocorreu em 2025.

Percebi uma alteração. Onde buscar atendimento?

Ao perceber um caroço na mama ou na axila, vermelhidão ou mudança no formato do mamilo, a orientação é procurar o posto de saúde, independentemente da idade. Não é necessário esperar a idade indicada para o exame, a próxima mamografia de rotina ou o mês de outubro para buscar avaliação.

A orientação é ir ao posto de saúde, e a equipe responsável avaliará a alteração e providenciará os exames e o encaminhamento ao atendimento especializado, quando necessário. O cuidado deve continuar depois do exame: é importante buscar o resultado e apresentá-lo ao profissional responsável pelo acompanhamento, que indicará os próximos passos. 

Acesso se estende por todo o estado

Outra história também foi alterada pelo atendimento médico rápido: a de Francilene Soares de Oliveira. Foi durante uma ação do Outubro Rosa, em 2025, que a moradora do bairro Parque Granjeiro, no Crato, teve um nódulo identificado na mama esquerda por uma mastologista da policlínica do município.

“Nessa mesma noite, fiz a mamografia e a ultrassonografia e, depois, foram realizados todos os demais passos para me conduzir a Barbalha, onde comecei o tratamento.” 

Ela resolveu fazer um exame por causa do apelo da campanha e, ali mesmo, o nódulo foi identificado na mama esquerda e todo o suporte necessário foi prestado.

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Francilene lembra que, naquela noite, Luciana Sobreira, gestora da Policlínica Regional no Crato, a encaminhou às profissionais responsáveis pelos exames. “O que mais me fortaleceu foi receber todo aquele cuidado, com o encaminhamento dos exames para eu fazê-los o quanto antes”, conta.

O percurso de Francilene é parte do papel das policlínicas no acesso a exames e consultas especializadas em todo o Estado do Ceará. Esse acesso começa, assim como o acesso ao IPC, na atenção primária: após avaliação e solicitação médica, o agendamento é feito pela regulação municipal.

Segundo o coordenador de Gestão de Consórcios da Sesa, Bruno Eloy, o trabalho que já vem sendo feito para a prevenção, o diagnóstico e o rápido atendimento nas Policlínicas Estaduais é ampliado neste mês. “As estratégias variam conforme a organização de cada serviço e incluem atendimento aos fins de semana e a ampliação da carga horária dos profissionais. A finalidade é possibilitar a realização dos exames em tempo oportuno”, completa. 

Em outubro de 2025, as policlínicas realizaram 17.424 mamografias, aumento de 39,4% em relação aos 12.503 exames registrados no mesmo mês de 2024.

De outubro a outubro rosa

A prevenção do câncer de mama e a busca por atendimento precisam fazer parte da rotina ao longo de todo o ano. Essa é a proposta da campanha permanente “De outubro a outubro rosa”, desenvolvida pela Sesa. A iniciativa reúne ações educativas sobre a redução de riscos, a atenção aos sinais da doença e a realização dos exames indicados, além de estratégias para ampliar o acesso à mamografia.

Ao longo de todo o mês de outubro, o Instituto de Prevenção do Câncer (IPC) realizará atividades especiais em referência à campanha. A programação inclui palestras, atividades nas salas de espera, rodas de conversa, intervenções teatrais e outras ações educativas voltadas para pacientes e trabalhadores da própria unidade.

Nas policlínicas, esse trabalho envolve a articulação com os consórcios de saúde e os municípios para organizar a oferta de exames. A campanha também incentiva as mulheres a buscar os resultados e dar continuidade ao acompanhamento, para que alterações suspeitas sejam investigadas e recebam o encaminhamento necessário.