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“HGF 57 anos: Eu faço parte dessa história”: de paciente na infância a profissional em formação, Fatima Fonseca reencontra o HGF décadas depois

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“HGF 57 anos: Eu faço parte dessa história”: de paciente na infância a profissional em formação, Fatima Fonseca reencontra o HGF décadas depois
Texto: Eva Sullivan
Fotos: Arquivo Pessoal

No ano em que o Hospital Geral de Fortaleza (HGF), equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), celebra 57 anos de história, a série especial “HGF 57 anos: Eu faço parte dessa história” reúne relatos de profissionais que tiveram suas vidas atravessadas pelo hospital. Entre corredores, plantões, consultas, perdas e recomeços, cada trajetória ajuda a contar também a história do HGF e das pessoas que fazem parte dela todos os dias.

O Hospital Geral de Fortaleza (HGF), equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), entrou na história de Maria de Fátima Fonseca antes mesmo de ela compreender o que significava estar em um hospital.

O nome HGF chegou primeiro pelas mãos da mãe Clara de Assis Fonseca Matos, pelas madrugadas interrompidas cedo demais, pelas filas e consultas marcadas ainda ao amanhecer. Chegou junto com o medo e com as perguntas que acompanhariam aquela família por muitos anos.

Fátima nasceu com mielomeningocele, uma malformação congênita que a fez vir ao mundo com a medula exposta. Três dias após o nascimento, passou pela primeira cirurgia. A mãe, viúva aos 19 anos, precisou aprender rapidamente a lidar com termos médicos, prognósticos incertos e uma rotina atravessada por cuidados permanentes.

Foi no HGF que encontrou um dos primeiros pontos de apoio. “Minha mãe sempre dizia que o doutor Orlando, médico ortopedista, ajudou muito a nossa família. Acho que ele veio muito para sanar dúvidas que existiam naquele momento: se eu iria andar, quais seriam minhas dificuldades, como seria minha vida”, conta.

Durante anos, o hospital ocupou um espaço fixo na rotina das duas. “A minha mãe acordava sempre às 3h30 da manhã para que a gente pudesse chegar nas consultas das 6h. A gente sempre morou longe, sempre precisou de transporte coletivo”, relembra.

A infância foi marcada por botas ortopédicas, consultas frequentes e procedimentos que buscavam preservar movimentos que, para outras crianças, pareciam naturais.

Caminhar, para ela, era resultado de acompanhamento contínuo, insistência e cuidado. “Graças ao acompanhamento que tive, consegui andar até os 13 anos”, diz. Ela fala desse período sem transformar a própria trajetória em narrativa de superação. O que permanece nas lembranças é, sobretudo, a imagem da mãe tentando sustentar respostas para perguntas que nem os médicos conseguiam definir completamente.

O acompanhamento médico foi interrompido ainda na infância. Aos poucos, Fátima perdeu a mobilidade. O corpo mudou rápido demais para uma adolescente que ainda tentava compreender a si mesma. Enquanto outras meninas descobriam possibilidades, ela sentia o mundo diminuir. “Até então eu andava, e do dia para a noite parei de andar. Eu não entendia o que estava acontecendo”, conta.

A deficiência, que até então fazia parte de uma rotina de tratamento, passou a ocupar outro lugar emocionalmente. Fá conta que cresceu sem referências de outras pessoas com deficiência. “Não via referências, não via futuro possível, não via caminhos. Eu achava que era a única”, lembra.

Foi nesse período que o esporte entrou em sua vida. Primeiro, como tentativa de socialização no Hospital Sarah. Depois, como descoberta de potência. O basquete abriu uma porta; o atletismo, outra ainda maior.

Anos mais tarde, aquela menina que atravessava a cidade para consultas pisaria na Vila Paralímpica do Rio de Janeiro como atleta da delegação brasileira. “Quando cheguei lá, passei dois dias sem dormir. Eu não conseguia acreditar que estava vivendo aquilo”, relata.

A dedicação como atleta culminou em recordes brasileiros e na participação na Vila Paralímpica do Rio de Janeiro, representando a delegação brasileira. 

A trajetória dela não seguiu uma linha reta. Vieram recordes brasileiros, competições e o auge no atletismo paralímpico. Depois, lesões graves, dores constantes e a necessidade de reorganizar a vida mais uma vez. Em meio a esse processo, voltou um desejo antigo. “Quando eu tinha 13 anos, pedi para Deus que um dia pudesse formar uma família”, lembra. A maternidade chegou em 2020, acompanhada de medo. Durante toda a gestação, ela seguiu protocolos rigorosos para reduzir os riscos de que a filha nascesse com a mesma condição. A bebê veio prematura, cercada de tensão e incertezas.

Foi também nesse período que o HGF reapareceu de maneira inesperada. “Durante as consultas descobri que minha ginecologista também trabalhava no HGF. E eu pensei: ‘Nossa, o HGF de novo na minha vida’”, conta.

Talvez porque alguns lugares deixam de ser apenas estruturas físicas com o passar do tempo. Tornam-se parte da memória de quem atravessou seus corredores em momentos decisivos.

Depois do nascimento da filha, Fátima ganhou uma bolsa de estudos integral e escolheu cursar Nutrição. A decisão nasceu da experiência como mãe dentro de uma UTI neonatal, observando o trabalho das equipes e aprendendo, na prática, sobre alimentação, recuperação e cuidado. “O que a nutrição me mostrou como mãe de neonatal foi muito forte. Mesmo na dor, aquilo me encantou”, diz.

Fátima e sua filha Árya

Quando chegou o momento do estágio, ela escolheu o HGF sem hesitar. Alguns colegas estranharam a decisão. Diziam que era um hospital emocionalmente difícil. Mas, isto não era um impeditivo para Fátima. “Eu sabia exatamente o que estava procurando. Queria voltar para um lugar onde fui recebida como paciente e poder devolver um pouco daquilo que recebi”, lembra.

O atendimento técnico ganha o reforço da empatia com mães e pacientes que atravessam momentos decisivos no hospital.

Hoje, circulando pelos corredores como profissional em formação, ela percebe detalhes que talvez passem despercebidos para quem nunca ocupou uma cadeira de espera por horas seguidas. Reconhece o olhar aflito das mães, entende o silêncio de alguns acompanhantes e o desgaste de quem saiu ainda de madrugada do interior em busca de atendimento – porque já esteve naquele lugar. “Às vezes é só um bom dia. Mas eu sei como um bom dia pode mudar o começo do atendimento de alguém”, reforça.

Nos 57 anos do HGF, a história de Fátima Fonseca também ajuda a contar a trajetória de um hospital que permanece na vida de muitas pessoas muito depois da alta médica. Alguns pacientes saem levando exames, receitas, lembranças difíceis, superação e ou uma nova chance de vida. E outros voltam anos depois com uma nova missão: cuidar de quem chega.