“HGF 57 anos: Eu faço parte dessa história”: Mãe e filha, uma vida inteira ligada ao HGF

No ano em que o Hospital Geral de Fortaleza (HGF), equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), celebra 57 anos de história, a série especial “HGF 57 anos: Eu faço parte dessa história” reúne relatos de profissionais que tiveram suas vidas atravessadas pelo hospital. Entre corredores, plantões, consultas, perdas e recomeços, cada trajetória ajuda a contar também a história do HGF e das pessoas que fazem parte dela todos os dias.
Nos corredores do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Anelena Quirino, 75, caminhava devagar, olhando para os lados como quem tenta reencontrar partes da própria vida. Aos poucos, os espaços atuais iam se misturando às lembranças guardadas há mais de cinco décadas. O quarto da maternidade já não é o mesmo. A antiga capela onde assistia missa deixou de existir. Alguns corredores mudaram de lugar, outros ganharam novos ritmos. Ainda assim, muita coisa permanecia viva na memória.
Ela voltou ao HGF por causa dos 57 anos do hospital. Voltou para revisitar histórias que atravessaram praticamente toda a vida da família. “Eu fazia tudo aqui. Pré-natal, consulta, atendimento. Tudo era aqui.”, lembra.
Foi no HGF que, em dezembro de 1970, nasceu a filha Patrícia Quirino. Anelena lembra da cena com precisão afetiva. A cama da maternidade, a antena da televisão vista pela janela e a decoração de Natal iluminando a noite. “Eu tenho uma lembrança muito forte do dia. Até da cama. Dava para ver a antena da TV onde era montada uma árvore de Natal. E eu pensava: ‘Minha filha já vai nascer brilhando’”, diz, entre risos.
Patrícia nasceu no dia 4, apenas um ano depois da inauguração do HGF. Hoje, aos 56 anos, ela ocupa um lugar que parece costurado pelo próprio percurso do hospital: é farmacêutica, doutora e coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa do HGF.

Ao retornar ao hospital para participar da série comemorativa dos 57 anos, Anelena reencontrava, também, com a própria juventude, o tempo em que chegava ao HGF ainda insegura como mãe de primeira viagem e saía da maternidade levando orientações escritas à mão, uma lata de leite e a tranquilidade de saber que teria acompanhamento depois da alta. “Todo mundo saía com uma lata de leite e um papel ensinando como fazer. Já saía tudo marcado pra voltar”, conta.
Anelena lembra das enfermeiras que insistiam para que, apesar da dor, tentasse amamentar, da preocupação genuína da equipe e da sensação de acolhimento que encontrou ainda jovem.“As enfermeiras ensianvam tudo a gente. Tinham paciência, atenção. A gente se sentia acolhida”, diz.
Em casa, veio também um episódio que, para a família, foi uma espécie de memória premonitória. Poucos dias depois de deixar a maternidade, Patrícia teve uma irritação na pele depois do banho. O pai saiu para pedir orientação em uma farmácia do bairro. O farmacêutico orientou trocar os produtos usados no bebê, ensinou cuidados simples e recomendou até goma para aliviar as assaduras, prática comum na época. Ao voltar para casa, ele entrou convencido de uma ideia. “Sabe o que ela vai ser? Farmacêutica”, esbravejou.
Anelena lembra da cena rindo. “Eu perguntei: ‘Mas por quê?’. E ele respondeu: ‘Porque a primeira saída dela foi pra falar com um farmacêutico’”, lembra.
Décadas depois, quando Patrícia escolheu Farmácia na Universidade Federal do Ceará, a brincadeira virou profissão. Passou na UFC entre os primeiros colocados, chegou a ser aprovada também em Nutrição e precisou decidir qual caminho seguiria. Estudiosa desde cedo, carregava uma relação intensa com os estudos, descrita pela mãe entre orgulho e humor. “Patrícia sempre foi muito estudiosa, mas um décimo a menos nas provas já fazia ela querer saber onde tinha errado”, brinca.

Enquanto reviam os álbuns de fotografias, para a gravação da série, mãe e filha também revisitavam a construção de um vínculo afetivo com o HGF. Depois que a família voltou de Curitiba para Fortaleza, Patrícia cresceu ouvindo da mãe uma frase constante: “Minha filha, você nasceu aqui.”
As duas frequentavam missas na antiga capela do hospital muito antes de Patrícia imaginar que um dia trabalharia na unidade. E dizia: ‘Meu Jesus, eu quero trabalhar aqui’”, conta Patrícia
O desejo se concretizou anos depois, por meio de concurso público. E o hospital continuou acompanhando a vida das duas, mesmo fora da dimensão profissional. Durante o doutorado de Patrícia, Anelena enfrentou uma grave complicação cardíaca e chegou a ficar em coma.
Enquanto a mãe permanecia internada, Patrícia precisou sair do hospital por algumas horas para concluir a matrícula do doutorado no último dia do prazo. “Teve uma amiga minha que ficou com a minha mãe enquanto eu fui fazer a matrícula. Se eu perdesse aquele dia, perdia o doutorado.”
Talvez seja justamente aí que a história das duas revele sua dimensão mais profunda. Não apenas pela trajetória acadêmica ou pelo vínculo profissional construído dentro do HGF, mas pela maneira como o hospital atravessa diferentes fases da vida delas. Nascimento, infância, formação, adoecimento, maternidade, trabalho e permanência.
Hoje, Anelena vê a filha ocupar o hospital que um dia frequentou como paciente jovem e mãe de primeira viagem. E observa também o movimento continuar na geração seguinte, agora com a neta. “Ela é mãe professora, mãe que ampara, mãe que dá caminho”, diz, emocionada.
Ao completar 57 anos, o Hospital Geral de Fortaleza reúne milhares de histórias. Algumas, duram dias. Outras, acompanham uma vida inteira. A de Patrícia e Anelena começou praticamente junto com a história do próprio hospital. Uma nasceu em dezembro de 1970. O outro, no ano anterior. Desde então, seguiram crescendo lado a lado. “Hoje, o sentimento é de muita gratidão e orgulho. Gratidão a Deus, e orgulho por minha filha doutora em Farmácia e, através de concurso, trabalhar no HGF. Obrigada, meu Deus, por tudo”, finaliza.