Notícias

“Meu querido HGF”: a trajetória de Ary Melo em mais de cinco décadas no hospital

#HGF#HGF 57 anos#Homenagem
“Meu querido HGF”: a trajetória de Ary Melo em mais de cinco décadas no hospital
Texto: Eva Sullivan
Fotos: Arquivo Pessoal e Governo do Estado

No ano em que o Hospital Geral de Fortaleza (HGF), equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), celebra 57 anos de história, a série especial “HGF 57 anos: Eu faço parte dessa história” reúne relatos de profissionais que tiveram suas vidas atravessadas pelo hospital. Entre corredores, plantões, consultas, perdas e recomeços, cada trajetória ajuda a contar também a história do HGF e das pessoas que fazem parte dela todos os dias.

Quando o médico Ary Melo fala sobre o Hospital Geral de Fortaleza (HGF), equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), a impressão que fica não é a de alguém recordando apenas um local de trabalho. Aos 86 anos, prestes a completar 87, ele olha para o HGF como quem reconhece um companheiro de jornada.

O hospital ainda dava seus primeiros passos quando Ary chegou para integrar a equipe de pediatria. “Tive o prazer de dividir a rotina com nomes que ajudaram a construir a história da pediatria cearense, entre eles Luiz Otávio Castelo, Prazeres Rabelo, Helena Leal, Adélia Luz e Jorge Triandópolis”, lembra.

As memórias de Ary Melo atravessam 57 anos da história do HGF

As lembranças mais vivas daquele período estão concentradas na antiga neonatologia, hoje reconhecida por seu padrão de alta qualidade e por sua grandiosidade técnica e profissional. “Naquela época, as incubadoras Fanem apenas aqueciam e ofertavam oxigênio. Usávamos o aparelho Takaoka em emergências, ‘luvas mágicas’ para conter apneias e fazíamos ressuscitações com adrenalina intracardíaca, além de fototerapias improvisadas com lâmpadas fluorescentes comuns”, recorda.

Entre uma época e outra, ficaram as madrugadas de plantão, as noites sem dormir, os sustos, os nascimentos difíceis e as amizades que sobreviveram ao tempo. Ary fala do hospital como quem fala de uma convivência longa e verdadeira, construída no cotidiano. “Mais de meio século de amor”, define. “Um amor maduro, mesmo platônico, mas inabalável e verdadeiro”.

Talvez por isso ele consiga descrever com tanto afeto detalhes que passariam despercebidos para quase qualquer pessoa. Elementos que, para muitos, seriam apenas sinais da passagem do tempo, mas que para ele carregam memória, presença e vida.

“Pode uma pessoa normal e em sã consciência amar desgastadas paredes, velhos elevadores com seus alegres ascensoristas? Pode sim, pois amei e amo ainda imensamente tudo isto em que vivi por 53 anos neste meu velho e amado HGF”, conta.

Depois de mais de meio século entrando pelos mesmos corredores, Ary Melo parece ter encontrado no HGF algo raro entre um profissional e uma instituição: a sensação de pertencimento. “Não é o sentimento formal de um crachá ou de uma longa carreira, mas o que nasce quando a própria vida passa a ser contada junto com a história desse lugar”, reforça.

Às vésperas de completar 87 anos, Ary ainda preserva o humor ao falar do futuro. Diz que não pretende ser “um outro Matusalém”, mas deseja continuar vivendo com autonomia, dirigindo seu “velho carrinho”, mantendo a memória ativa e as conversas com amigos e familiares.

A forma como fala Ary do HGF ajuda a entender o motivo de sua permanência tão longa. Há instituições que fazem parte da biografia de alguém. Em casos mais raros, a vida da pessoa também passa a fazer parte da memória da instituição. Ary Melo e o Hospital Geral de Fortaleza parecem ter chegado juntos a esse ponto.